quinta-feira, 11 de junho de 2015

UM MUNDO DE DISCREPÂNCIAS

Decidi, neste capítulo, expor uma relação muito reduzida de contradições da Bíblia, mesmo porque são milhares as que existem, sendo as Escrituras a origem da ideia do deus que concebemos e fixamos na mente. São intermináveis as situações de montagem de texto que a filologia classifica como infantilidade; episódios com pretensões históricas que a arqueologia ignora; a geologia deplora; como também fantasias teológicas que dão a impressão de terem sido criadas numa creche, no recreio, como um jogo de crianças.

Para dar mais movimento ao texto, resolvi utilizar um critério aleatório de exposição, sem nenhum compromisso com a ordem cronológica dos fatos. Isso cria uma onda de questionamentos que podemos até evitar, mas não devemos negar se quisermos ser honestos. Até quando adiaremos essa posição de fraqueza, que se torna pesada e elimina a possibilidade de vida feliz, justamente por sabermos que nos falta boa dose de coragem para repensarmos a religião? É só uma questão de termos disposição para refletir sobre a religião do Livro e os horizontes ficarão mais claros.

As contradições no texto bíblico já adquirem corpo logo no primeiro capítulo do Gênesis. Somente depois do cativeiro da Babilônia, no século VI a.C., é que anexaram o livro da criação aos demais que compõem a Torah... Uma verdadeira batalha de testes com o intuito de medir a reação psicológica do povo da época para tornar sagrado o livro dos hebreus. Desta maneira, como bem dizia Nietzsche, “e criaram-se umas tais escrituras”...

Ainda existem grupos que proclamam a completa inerrância da Bíblia. São fundamentalistas incorrigíveis. Afirmam que Adão e Eva existiram literalmente no tempo, no espaço. De jeito doentio, proclamam a Bíblia como palavra de Deus e não admitem nenhum tipo de discussão contrária a isso. Então, o que vamos fazer? Nada, porque já me reservei: não jogo mais pérolas pela janela e acho que você deve fazer o mesmo. Não se muda ninguém – as pessoas precisam sofrer e se decepcionar para enxergar a realidade. Tenho certeza de podermos ajudar pessoas, quando forem receptivas e respeitosas, ao demonstrarem necessidade de ajuda de quem já viu como as coisas funcionam.

Os tais fundamentalistas chegaram à loucura de construir um projeto de silogismo para defender a fé cristã: “Deus não pode errar. A Bíblia é a palavra de Deus. Portanto, a Bíblia está isenta de erros”. De onde esses filósofos tiraram as duas premissas de que Deus não pode errar e a Bíblia é a palavra de Deus? Da própria Bíblia! Temos, então, um sofisma dos bons... Citam a Bíblia como prova da própria Bíblia. O Livro defende o Livro.

Os mesmos fundamentalistas afirmam que os erros existentes nas Escrituras foram cometidos pelos copistas, mas os originais são perfeitos, sem qualquer erro. Mas que originais, se eles não existem? Chegam a dizer que os erros, se encontrados, jamais afetariam a doutrina cristã... Têm a opinião lunática de Deus ter adotado a revelação progressiva, assim, revelações últimas vão sobrepujar as anteriores, criando a situação ideal para dissipar os erros grosseiros com boas justificativas mais recentes – uma forma divina de inventar um up grade do Livro!

Hoje, surge mais uma terrível ameaça: se não existe o Adão histórico, as Escrituras desabam e com ela os dogmas cristãos. Mas a realidade é que, descartada a infantilidade oriunda das mentes obtusas, a ciência já provou que nossa espécie tem a origem nos seus ancestrais, fixada há milhões de anos. Isto é indiscutível para as pessoas que tenham razoável formação acadêmica.

Exemplo tosco da revelação progressiva hipotética: o fato de Deus, quando teria criado Adão, ter-lhe ordenado que comesse apenas ervas que dão sementes e frutos de árvores, que também dão sementes. Bem mais tarde, entretanto, quando Noé teria saído da arca após o dilúvio, houve a autorização do Eterno para que ele passasse a comer de “tudo que se move e vive”. Sendo a revelação anterior revogada, agora era permitido comer carne. Afinal, caro leitor, o mundo mudou bastante depois da enchente...

As Escrituras dizem que Deus é onipresente. Mas, como o Deus dos hebreus era dado a teofanias[1], aparecia lá e cá. Não é à toa que desceu para inspecionar a torre de Babel que os homens edificavam; também teria vindo para conversar com Moisés, Gideão e Josué. A natureza pessoal divina perdera a onipresença temporariamente para atender a necessidades de algumas visitas de caráter mais individualizado – de onipresença a aparições pessoais.

As questões relativas ao emprego da terceira pessoa em muitas passagens bíblicas, como no caso de Êxodo 6:26-27, que se refere a Moisés e Arão como “são eles”, caracteriza que a passagem foi escrita por outro autor e não Moisés. Mesmo assim, os defensores da inerrância das Escrituras declaram que os escritos antigos seguem essa linha de construção de texto na terceira pessoa... Fica-se sem meios de debate com os sectários, pois tudo é sustentado pela própria Bíblia e nunca através do método científico.

A doutrina cristã diz que Deus não muda. Por que razão fala-se tanto que Deus se arrependeu de ter criado o homem? Está lá em Gênesis 6:6: “Então se arrependeu o Senhor de haver feito o homem sobre a terra, e pesou-lhe em seu coração”. No livro de Êxodo, o Criador se declara arrependido do mal que faria ao povo. Em I Samuel 15:35, Deus se arrepende de haver escolhido Saul como rei de Israel. Instabilidades de Deus? Não, é falta de um projeto literário melhor dos hebreus. Ao inventar a Bíblia, não deveriam ter descuidado nos traços elaborados da personalidade divina. Em Números 23:19, escrevem: “Deus não é homem para que minta; nem filho do homem para que se arrependa”. No livro de I Crônicas 21:15, Deus manda um anjo destruir Jerusalém, mas, no meio do caminho, se arrepende e manda o anjo voltar... Em Jeremias 15:6, Deus diz que está cansado de se arrepender. No mesmo livro 18:8, o Criador promete se arrepender. Em 26:3, novos possíveis arrependimentos. Mais adiante, no verso 13, outra recaída de arrependimento. No capítulo 42 do mesmo livro, verso 10, Deus se diz arrependido do mal que fizera ao povo. Em Amós 7:3, outra crise. Três versos adiante, a crise se agrava... Caramba, que temperamento! O que é isso? É o que o povo gosta.

Ao longo de toda a Bíblia, um livro diz isso e outro aquilo. Desabono em cadeia e o clero ajusta tudo para dar colheradas de doutrinas para os ingênuos necessitados de sonhos. O livro de Êxodo diz que Moisés recebeu as leis no Monte Sinai, já em Deuteronômio, ele teria recebido em Horebe. Em Deuteronômio, Arão morre e é enterrado em Moserá, mas em Números, Arão morre no monte Hor. Em Deuteronômio, Deus permite que se tome bebida forte; em Levítico, o uso de bebida forte é proibido.

Em Deuteronômio, Moisés, um poço de sabedoria, determinou que os israelitas poupassem a vida dos prisioneiros e os fizessem escravos, mas em seguida mandou matar todos. Era inspirado, o escolhido de Deus... A conclusão de Moisés foi de que o grau de pecado deles não podia ser suportado por Deus. Mas por que as abominações dos israelitas, também terríveis, eram suportáveis? Se você decidir comer maná por quarenta anos vai descobrir!

Caso pitoresco na Bíblia é a ridícula defesa dos fundamentalistas de hoje em relação ao voto de Jafté[2]. Na lenda bíblica da batalha contra Amon, Jafté teria feito um voto a Yahweh, caso vencesse: ofereceria em holocausto quem saísse pela porta da sua casa ao seu encontro. Diz a Bíblia que foi a sua filha! Jafté, então, não pôde voltar atrás na sua palavra, oferecendo a filha em holocausto. Mas os sectários, defensores do Livro, insistem que o holocausto se referia à preservação da virgindade da filha e não ao sacrifício da sua vida... Engraçado é que qualquer dicionário diz que holocausto é sacrifício expiatório, imolação. Ainda que fosse a virgindade o mérito, os redatores do Livro deveriam usar melhor as palavras. Agora, à conclusão – veja-se o brado de Jafté depois de rasgar as próprias vestes em desespero: “Ai! Ai! Filha minha! Tu me prostraste em angústia! Tu estás entre os que me fazem infeliz! Fiz uma promessa a Yahweh e não posso recuar!”. Todos os anos, as filhas de Israel iam por lá para prantear e lamentar o que acontecera à filha de Jafté. Prantear o que, a virgindade?...

As contradições não ficam somente nas palavras, as Escrituras estão repletas de números conflitantes. Em I Samuel 13:5, para dar continuação às brigas com os israelitas, os filisteus reuniram um exército com trinta mil carros de guerra e seis mil cavaleiros. Como teriam sido feitos esses carros? Na história de qualquer povo da Antiguidade, jamais houve registro de tantos carros de combate. Nem mesmo nos grandes impérios.

Na visão dos hebreus, o todo-poderoso precisava de uma morada. O livro de I Reis 8:12, diz que Deus habitaria nas trevas. Em II Crônicas 6:1, Salomão diz que o Senhor habitaria nas trevas. Já em I Timóteo 6:16, Deus habita na luz inacessível. Bem, Salomão declarou que edificara uma casa para Deus, justamente porque o todo-poderoso habitava nas trevas. Depois, o Senhor teria aparecido a Salomão, dizendo-lhe que ouvira as suas orações e escolhera o templo para o seu local de sacrifícios... O templo, assim, fora escolhido e santificado. Mas tudo mudou com o tempo. Em Atos 7:48,49, lemos: “Mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens, como diz o profeta, o céu é o meu trono e a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? Diz o Senhor: ou qual é o lugar do meu repouso?”. O Eterno mudou de ideia.

Em I Samuel 17:50, diz que Davi feriu Golias e o matou. Em II Samuel 21:19, afirma que foi El-Hanã quem matou Golias. Em I Samuel 17:54, Davi teria levado a cabeça de Golias para Jerusalém. Mas Davi só foi para Jerusalém muito tempo depois, quando a conquistou, de acordo com o livro de II Samuel 5:6-9. Será que Davi guardou a cabeça de Golias embaixo da cama?

Números novamente. No livro de I Reis 4:26, diz que o rei Salomão tinha quarenta mil cavalos. Em II Crônicas 9:25, fala de outra história: apenas quatro mil cavalos, o que, para mim, já são cavalos demais para um rei de um povo paupérrimo. Os sectários biblistas, entretanto, também gostam de jogar a culpa nos copistas antigos, para continuar com o uso do rótulo palavra de Deus. Sobre a lambança dos copistas já falamos o bastante, mas eles também são alvo dos protetores do Livro, desde que comedidamente, para que não se chegue a questionar as Escrituras.

Fala-se hoje bastante sobre intolerância religiosa. Imagine-se um grupo religioso do nosso tempo alegar que Deus lhes outorgara o poder de matar outro grupo, também religioso, sob a acusação de crença espúria e idolatria. No antigo livro de Reis, o profeta Elias disse ao povo: “Lançai mão dos profetas de Baal; que nenhum deles escape e lançaram mão deles; e Elias os fez descer ao ribeiro de Quisom, e ali os matou”. Pois é, mas acontece a mesma coisa na época em que vivemos. Na Irlanda do Norte, se pudessem, católicos e protestantes arrancariam os olhos uns dos outros. Outro bom exemplo é o mundo árabe com a beligerância do islã – a Índia com seus milhões de deuses –, mas relembrando as carnificinas bíblicas, os judeus e palestinos de hoje.

Embora não seja aparente aos sectários, a Bíblia fere princípios básicos, como o da admissibilidade, quando força a crença em coisas absurdas e fantasiosas, a exemplo da lenda do dilúvio. Também, o princípio da razoabilidade, quando em II Reis 2:23-24, o profeta Eliseu, a caminho de Betel, é ofendido por jovens que gritavam: “sobe, calvo!”. Eliseu os amaldiçoou e, então, saíram duas ursas do bosque e despedaçaram os garotos... Interessante é o fato da ocorrência de ursos na região desértica e um bosque em tal lugar. O mais curioso é que ser chamado de careca, com resposta de carnificina, não é nem um pouco razoável.

Em II Reis 20:11, Ezequias, servo do Altíssimo, teria adoecido de morte. Segundo o texto, veio a ele o profeta Isaías com a ordem para que “fizesse os biscoitos para a viagem”, pois sua hora era chegada. Então, Ezequias entrou em oração, lembrou a Deus que andara de coração reto no mundo e chorou. Deus, assim, teria se comovido, repensado a situação e concedido mais quinze anos de vida a Ezequias, sendo o “ponteiro” do relógio de sol de Acaz retrocedido em dez graus. Mas que ponteiro? O ponteiro era a sombra do pino que compõe o relógio de sol! Por que razão um deus, concebido como onisciente, privilegiaria um sujeito com quinze anos a mais de vida, enquanto milhões de crianças morrem a cada instante no mundo da maneira mais injusta concebível? As leis físicas do universo têm que ser mudadas em benefício de um indivíduo qualquer apenas porque se intitula filho de Deus? Se for assim, isso não passa de um mingau teológico!

Para que a separação do “povo de Deus” fosse perfeita, o Livro teria que impedir o casamento dos hebreus com outros povos. Acontece que essa prática sem amor e discriminatória persiste até os nossos dias. Para suavizá-la, os crentes de hoje puseram o nome nesse princípio cretino de jugo desigual. No livro de Esdras 10:10-44, os israelitas expulsaram suas mulheres de casa porque não pertenciam ao povo de Deus... Já o apóstolo Paulo corrigiu o erro, dizendo: “Se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a deixe”. Mas a realidade é bem outra: no meio evangélico, quem casa com incrédulo vai ter problemas pela quebra das regras... Embora eles digam que não há regras, elas permanecem veladas, tornando-se bem piores. É preciso, portanto, que o corpus eclesiástico permaneça homogêneo. Pertencimentos...

A Bíblia, por ser um livro heteróclito, é conflitante em assuntos essenciais, por isso ela cai em descrédito a cada dia. Por exemplo, no livro de Salmos 37:25, o salmista diz: “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência mendigar o pão”. É isso, porventura, o que vemos? Se visitarmos uma favela hoje, a maioria dos seus moradores é cristã. Quando, raramente, conseguem comprar um carro caindo aos pedaços, colam um adesivo no vidro traseiro: “Este Jesus me deu”... Depois, desamparados, muitos cristãos morrem na imundície dos hospitais públicos. Seria uma bazófia do rei Davi? Os filólogos modernos, entretanto, afirmam que esse salmo jamais foi escrito por Davi. Alguns dirão: mas essa é uma promessa para o povo judeu! Bem, então, o cristão não é filho de Deus? Ih... Acho que se eu fosse salmista hoje, modificaria o tom: “Fui moço e agora sou velho, mas nunca vi um judeu na favela”...

Um salmo diz que “Deus não dormita, nem dorme”. Já o Salmo 44:26, declara: “Desperta! Por que dormes, Senhor? Acorda! Não nos rejeites para sempre”. Volta e meia, retorno às afirmativas de Nietzsche sobre a morte de Deus – mas o Criador não morreu de fato, apenas ficou sonolento... A verdade é que o Livro não nos convida a pensar, antes nos conduz à fé cega, longe da reflexão e do pensamento puro que a filosofia nos empresta. Tanto nos impede de pensar, que coisas absurdas em nome de Deus até nos fazem perder o juízo de valor que cultivamos pela vida afora. No livro de Salmos 137:9, lemos somente isso: “Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras”... Se na época de Gutemberg existisse o Juizado da Infância, sua oficina gráfica seria fechada e a leitura da Bíblia proibida.

No evangelho de Mateus 20:29-34, temos o relato da cura de dois cegos em Jericó. Já em Marcos 10:46-52 e em Lucas 18:35-43, apenas um cego fora alcançado pela cura. Mateus tinha predileção pelo número dois, pois anteriormente já mencionara o episódio de dois endemoninhados, enquanto que Marcos e Lucas afirmaram que era apenas um possesso gergeseno. Se o autor do evangelho de Mateus estiver certo, foram mais porcos perdidos pela legião que os incorporara – pobre dono dos porcos...

Os evangelhos, em geral, contradizem-se em pequenos detalhes que se tornam grandes. Ainda que os defensores do Livro ab-roguem as contradições, dizendo-as sem importância em relação ao todo, com um mínimo de erudição, sabe-se que isso é uma sofistaria teológica. Convenhamos, péssimo artesanato dialético, mantido por infinitos remendos fundamentalistas, aplicados por séculos na prática de cópias do Livro por meios ineptos e dolosos. A Bíblia, aliás, fala de remendos.

Mateus diz que Jesus anunciou a sua volta depois da Grande Tribulação[3], Lucas já nega: seria estabelecido antes o “tempo dos gentios”. Mateus e João afirmam que Pedro negaria a Cristo três vezes antes que o galo cantasse uma vez. Marcos já fala que isso se daria antes que o galo cantasse duas vezes. Outra contradição: as inscrições sobre a cruz são registradas com texto diferente em cada evangelho... Mateus expõe os dois malfeitores, que teriam sido crucificados com Cristo, lançando-lhe ofensas – Lucas diz que apenas um ofendera o Mestre, pois o outro teria se arrependido. Sobre a ressurreição de Cristo, Mateus declara que só um anjo estava no sepulcro, mas para João seriam dois anjos. No evangelho de Marcos, Jesus faz a promessa de que receberíamos tudo segundo o grau da nossa fé, mas o apóstolo Paulo pediu a Deus por três vezes que lhe fosse afastado um espinho da carne e Deus não o atendeu. Por quantas vezes só nos restou o silêncio de Deus? Falta de fé? Claro que não, nossa mente foi programada pela religião para que aceitássemos a culpa total.

Os evangelhos de Mateus e Lucas são talhados nos pormenores para se complementarem sobre o nascimento de Jesus. O ponto que precisa ser ressaltado a todo custo se refere ao nascimento virginal do Messias e a necessidade de ter ocorrido em Belém. Por quê? Porque no livro de Miqueias 5:2, há uma profecia de que um messias viria de Belém, uma vez que era a terra de Davi, rei de Israel: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”.

Ora, é sabido que José e Maria eram de Nazaré, assim como Jesus, mas foi preciso adaptar os fatos para gerar um ponto teológico fundamental. Para tal, se fez necessário um motivo forte que constatasse a presença deles em Belém. Depois, o casal e o filho teriam que sair da cidade em fuga para o Egito. O motivo era a criação de um episódio bíblico que não tem nenhuma prova histórica: a “matança dos inocentes”, pelo rei Herodes, em Belém. Toda criança do sexo masculino, até dois anos, deveria ser morta através do decreto do rei. Por que, então, José e Maria foram para Belém, onde Jesus teria nascido? Pela razão de outro fato, talvez inventado, pois não existe nenhum registro ou prova histórica de sua veracidade: o decreto do imperador César Augusto, que criava um censo no império e determinava o retorno de cada cidadão à terra dos seus ancestrais para se apresentar aos censores. José tinha como ancestral a Davi, logo, teria que ir a Belém. Só que Davi existira, hipoteticamente, uns mil anos antes de José! Enfim, um esforço imenso para que Jesus nascesse em Belém por causa de um versículo escrito por Miqueias... O profeta do Antigo Testamento jamais poderia imaginar que seu texto fosse canonizado e se tornasse tão importante na confecção do cristianismo, mesmo com interpretação duvidosa.

O conflito de historicidade se instala quando Mateus sustenta que, após a matança dos inocentes, a família teria fugido para o Egito, enquanto que, no relato de Lucas, eles teriam seguido direto para Nazaré... Mesmo que os evangelhos de Mateus e Lucas pareçam se completar em relação ao nascimento do Messias, na verdade representam contradições mais significativas do que a maioria das pessoas imagina.

A questão das genealogias de Jesus, comparadas nos evangelhos de Mateus e Lucas, por serem diferentes, se tornam estranhas. Embora tenha feito comentário anterior, vale reiterar. A genealogia em Mateus retrocede até o rei Davi e, depois, até Abraão. Mas que história pode ser essa se José não era o pai biológico de Jesus? Maria não descendia de Davi, mas José sim. A genealogia de Lucas retrocede ainda mais: chega até Adão e Eva...

Sobre ascensões, no evangelho de Lucas 24:50-51, diz que Jesus ascendeu aos céus estando em Betânia, entretanto, no livro de Atos 1:9-12, declara que esse evento ocorreu mesmo no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Estudioso do tema, o Barão de Holbach[4], dizia que a crença em qualquer ser superior é o produto do medo e, em certa ocasião, quando foi indagado sobre ascensão, respondeu de forma generalizada: “O que foi dito sobre Deus é ininteligível ou perfeitamente contraditório; por esta razão, deve ser uma hipótese absurda para todo homem de bom senso”.

Em João 14:28, está escrito: “O Pai é maior do que eu”. Como o Pai pode ser maior se Jesus está colocado como igual a Deus? Ora, é porque tudo foi feito em família... Deus buscou acomodar a situação: inspirou os seus santos bispos, no concílio de Niceia, para repetirem assim direitinho: “Jesus é Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai”. No segundo concílio da igreja, o de Constantinopla, em 381 d.C., o imperador Teodósio ajudou a bispalhada a confirmar a Trindade. Finalmente, no quarto concílio, o de Calcedônia, em 451 d.C., fecharam a questão trinitária em definitivo. São três em um – uma família que não se discute.

Sobre ressurreições, convém falar de Lázaro. O que me deixa boquiaberto é o nível da discussão protestante, cenário em que tudo mais se assemelha a um jardim de infância das ideias. Como os argumentos são primários... Quanto ao hipotético Lázaro, no evangelho de João 11:44, lemos: “E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: desligai-o e deixai-o ir”. O que me deixa pasmo não é a discussão sobre uma ressurreição dessas, mas a apologia que os crentes fazem de tal acontecimento, tecendo defesas bobas, por exemplo, o fato presumido de ele ter saído do túmulo aos pulinhos depois de “escorregar” da tábua em que o teriam depositado, uma vez que a múmia em questão estava com as mãos e os pés amarrados...

Para encerrar essa parte de leitura sofrida, falemos da castração santa – ou circuncisão. O apóstolo Paulo, com as próprias mãos, circuncidou a Timóteo para fazer política com terceiros. Paulo, porém, foi quem mais atacou a circuncisão nos tempos bíblicos, ao alertar sobre a sua total ineficácia para alcançar a salvação... O apóstolo dos gentios se dizia irrepreensível e acusava Pedro de ser repreensível, pois o resistira na “cara”, mas o cristianismo tem as suas bases fincadas na teologia de Paulo. Pergunto, então: por quê? Por causa de uma visão improvável? Uma interpretação pessoal? Será que não recebemos do apóstolo uma fetichização abscondita nos símbolos judaico-cristãos?

Na Bíblia encontramos milhares de remendos, desvios da história, filologia conflitante, adaptações, enfim, até fraudes inseridas pela própria Igreja. Para continuar com o discurso sobre contradições, seria preciso escrever mais uns dez volumes como este, e ainda acho pouco. O compromisso é com a ideia do produto livro, que foi usado para plantar a essência do monoteísmo. O Livro, então, foi inventado e impingido como “palavra de Deus”, porque se usou para tal feito o desvio cognitivo de toda a humanidade...


[1] Teofania é a aparição da divindade.
[2] Um guerreiro famoso do todo-poderoso de Israel e herói da fé em tempo integral.
[3] Período que sucederia a volta de Cristo, dando início às dores apocalípticas.
[4] Filósofo e enciclopedista franco-alemão, 1723-1789.


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quarta-feira, 10 de junho de 2015

O DESGASTE DA IDEIA DE DEUS

Construíram um senhor fornido, de barba crespa e branca – em seguida, enfiaram-no numa camisola branca, lá na Antiguidade. Confesso que o acho parecido com Karl Marx. Um misto de aparência de bondade com um aspecto bruto e grosseiro. Isso mesmo, o gênio de Michelangelo nos deixou esse incrível retrato divino-anabolizado, da Antiguidade. Se os papas mantêm essa figura no teto da Sistina, é porque pegou. Ele é Deus!

Os outros também são parecidos com Deus, porque os demais pintores também tinham sua devoção. Mas, no meu simples ponto de vista, acho que fico mesmo com o Deus da camisola. Bem, retomando um tom mais sério, a ideia da deusa-mãe, anterior ao monoteísmo judaico, não prosperou. Por que razão o monoteísmo judaico triunfou com a formatação de um deus masculino, de voz grave? Pelo menos foi assim no filme de Cecil B. DeMille...

Foi concebido pelos hebreus um modelo de deus masculino, forte fisicamente como pintado, mas que resultou confuso e fraco nas atitudes, a ponto de ter se arrependido de haver criado o ser humano. Os antigos hebreus projetaram uma figura masculina que representaria o seu deus. Curioso, deram-lhe um nome que não poderiam repetir à toa, pois seria tomá-lo em vão – mas e agora?

Desde que as sociedades antigas se tornaram patriarcais, o deus tinha que ser macho e precisava de uma biografia. Biógrafos hebreus nunca faltaram, por isso, hoje temos o Livro, embora, com a evolução do mesmo, não pudessem mais mudar o sexo de Deus. Já estava registrado, senão o que seria da religião do Livro?

Revendo Michel Onfray sobre a construção do Livro: “Os evangelistas desprezam a história. Sua opinião apologética o permite. Não é preciso que as histórias tenham acontecido efetivamente, não é útil que o real coincida com a formulação e a narração que se oferece dele, basta que o discurso produza seu efeito: converter o leitor, obter dele uma aquiescência sobre a figura do personagem e seu ensinamento”. Temos, assim, a forma perfeita para o constructo teocrático do Livro, segundo Onfray, que prossegue: “Todos creditam realidade a uma ficção. Acreditando na fábula que contam, dão-lhe cada vez maior consistência. A prova da existência de uma verdade reduz-se com frequência à soma dos erros repetidos que um dia tornam-se uma verdade convencionada”.

O momento mais difícil na minha vida de credulidades, mas que não me desviou do enfrentamento com a questão em si, foi conhecer o que concluiu Michel Onfray: “Jesus é, portanto, um personagem conceitual. Toda a sua realidade está nessa definição. Certamente, ele existiu, mas não como figura histórica – a não ser que de maneira tão improvável que pouco importa a existência ou não. Ele existe como uma cristalização das aspirações proféticas de sua época e do maravilhoso próprio dos autores antigos, isto de acordo com o registro performativo que cria dando nome. Os evangelistas escrevem uma história. Com ela narram menos o passado de um homem que o futuro de uma religião. Artimanha da razão: eles criam o mito e são criados por ele. Os crentes inventam sua criatura, depois lhe prestam culto: o próprio princípio da alienação...”. Para mim, foi muito difícil enfrentar esta declaração.

O homem encontrou um meio para fixar a imagem de Deus desde a Antiguidade, sem o qual a imagem convencionada não teria alicerces, mudaria mais amiúde. Esse meio se mostrou eficaz através da escrita de uns livros sagrados. Como funciona o processo de aplicação pedagógica dos livros? Muito simples. Adotando o princípio da fidelidade do devoto, tomemos a Bíblia como modelo. Se um religioso admoesta alguém sem usar o Livro, dizendo que o tal cometeu o pecado de adultério, esse alguém pode mandar o religioso passear em outras bandas. Mas se esse mesmo religioso utilizar o Livro, citando uma passagem relacionada ao erro em questão, a pessoa advertida encarará a situação de outra forma. O medo toma conta dela, pois não é o religioso quem diz, mas o Livro sagrado. Sempre o medo e a culpa.

Nessa linha de raciocínio, o ensinamento sobre adultério seria absorvido anteriormente pela fé do devoto. Uma vez assentado o referido desvio cognitivo na mente crédula e, com a consequente confirmação emocional no indivíduo doutrinado, a estratégia da escrita responde ao resultado com êxito absoluto. É fato concreto, pois a escrita estabeleceu um estereótipo que, sem dúvida, passa a ser de aplicação universal.

O episódio, que relata a situação de adultério, torna-se uma história aceita universalmente pelos crentes. O assunto é mais forte do que o acontecimento, por isso, tende a configurar uma verdade admitida. Esse é o mecanismo do dogma, portanto, não é para ser questionado. A vontade de Deus sempre contou com a preguiça intelectual dos seus seguidores.

Os protestantes e os católicos já aceitaram, mesmo veladamente, o método histórico-crítico tão enfatizado neste livro. Os cursos de teologia das igrejas mais importantes adotam esse princípio por uma questão de inteligência, pois perceberam que o cristianismo precisa de adaptações, novas interpretações da Bíblia, para que ela não se revele como história da carochinha... Evangélicos, imãs muçulmanos e rabinos ortodoxos, cegos, insistem na ideia de que o Corão e a Torah provêm literalmente da boca de Deus.

Uma prova inconteste de que o cristianismo está mais lúcido em relação ao irreversível método histórico-crítico, é a declaração do papa João Paulo II, em 1996, sobre o desdobramento da teoria de Darwin, afirmando que ela é “bem mais do que uma hipótese...”, ao admitir que “se o corpo humano é originário de substâncias preexistentes, a alma tem que ser imediatamente criada por Deus”. Ora, ora... Isso é um grande sofisma, mas foi enviado pelo papa oficialmente à Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano. Falha que demonstrou a grande fraqueza da Igreja de Roma no século XX, pois agora eles não têm como refutar o princípio da seleção natural e do evolucionismo. Se o papa tivesse refletido mais, não prolataria uma sentença absolutamente romântica, na tentativa de salvar a fé católica. Na seleção natural, Deus é desnecessário.

Mais uma derrota da igreja: o sumo pontífice embolou fé com ciência. Ó grande papa, como vossa santidade vai resolver sobre os seis dias da criação e o sétimo, feriado de Deus? Para complicar mais, o sucessor, Bento XVI, demonstrou também ser adepto do método histórico-crítico, pois aderiu ao princípio do que Jesus poderia ter dito ou não, atribuindo isso aos acréscimos tardios e alterações textuais da Bíblia. Talvez seja esse um dos motivos da queda de Bento XVI. Mais do que nunca, ficaram flagrantes os sintomas de desmoronamento da Igreja de Roma no século presente. Qual será, então, o futuro da fé cristã?

Temos o Livro, a fortiori construído para firmar o perfil de Deus, agora, no sentido inverso, por revelar tantas contradições, passa a comprometer a ideia de Deus. Observe-se que o alicerce da casa já não se mostra suficiente, porque puseram na edificação muito saibro e pouco cimento... O caso é que o transcendente não basta mais! Então, convém que dissimulem, pois uma vez que a Igreja adere abertamente ao método histórico-crítico, seu futuro se torna incerto e ameaçado, mas os que já estão no poder permanecerão no reino aqui da terra ainda por um bom tempo.

Há quem ainda defenda a Bíblia como palavra de Deus, no rigor máximo da expressão. Sustentam que, quando canonizada, seus redatores deixaram de propósito os deslizes que a Bíblia apresenta como prova da honestidade dos seus escritos. Ora, seus primeiros redatores não quiseram alterar as contradições para que, através dos erros, as Escrituras mantivessem o selo de autoridade maior, justamente como prova da fraqueza humana. Acho difícil que isso tenha se passado dessa forma. Vejo nesse argumento a afirmativa da imperfeição humana, com a finalidade de reforçar a perfeição de Deus, o perdão divino e jogar a culpa na humanidade infeliz.

É preciso separar as coisas. Importa, então, a priori fazer mais uma observação sobre este trabalho: minha intenção não é discutir a natureza de Deus como objetivo primeiro, mas sim trazer à luz o problema da construção da Bíblia, que mantém o conceito de um deus específico, formatando-o. Mesmo porque, o presente livro perderia sua retaguarda científica, pois o que está em discussão permite a análise histórica e a abordagem da razão.

O Absoluto impessoal, ou Força superior, é uma hipótese. Por essa razão, não existem elementos probatórios da ciência para tratarmos de um assunto tão abstrato. Nem mesmo o Deus da Bíblia está num plano primacial de discussão. Ele é um produto do Livro. Somente dessa maneira, poderemos discutir a história do nascimento da religião do Livro, com todas as suas implicações.

Ao discutirmos um Ser Absoluto, caímos inexoravelmente na roda da religião e o que pretendo é ser racional. Hipóteses, na ótica científica, exigem provas. Na religião, interpretações. Não é à toa que ainda vivemos sufocados por uma emergência intelectual sem proporções, a contumácia da fé sem reflexão. Interpretações não me interessam, todos têm muitas. Comprovação histórica é outra coisa, nada tem a ver com o atraso da religião.

Todo devoto tem cegueira da razão e permanece encarcerado ao tenebroso mundo perceptivo que o engoliu. Ele detém uma visão parcial da realidade – fracionada –, longe de vislumbrar o todo. Lembremos, então, de um argumento primário, mas extenso na expressão: “todo religioso acha que sua religião é a certa”, ou, pelo menos, a que mais próxima está da verdade. Ora, se a sua religião é a certa, a minha tem que estar errada, porque não há verdade em coisas que divergem. Essa história de que todas as religiões são boas, só porque promovem o bem, não corresponde à realidade. Nenhum dogmático aceita o dogma do vizinho, antes combate o tal com uma espécie de ódio silencioso, esperando que Deus esclareça o vizinho ou castigue o incréu sem piedade. Concorrente bom é concorrente morto afinal...

Existe uma ética suspeita no meio religioso, que estabelece certa disputa silenciosa. É uma expectativa de comprovação divina nas doutrinas de cada um e, quando isso não acontece, sobrevém o desconcerto, amparado pelo silêncio do crente. Mas quando a comprovação “acontece”, ou melhor, um desvio cognitivo causa essa sensação, significa para ele a assertiva de Deus, a confirmação final. Confirmação emocional! Deus, então, “mostra” ao religioso vencedor, sempre com fundo doutrinário, que a sua religião é a certa, o que é motivo suficiente para que ele prossiga na fé, cheio de confiança, sem perceber sua própria cegueira intelectual pelo resto da vida. Essa é a confirmação emocional que vem depois do desvio cognitivo, a inferência paradigmal injuntiva, mãe de todos os “achismos” e distorções cognitivas.

Sobre mim, posso falar com segurança. Quando, no passado distante, ingressei no meio das seitas cristãs emocionantes, uma denominação atraiu minha atenção em particular. Chamava-se “Assembleia de Alguma Coisa”. Imediatamente, achei que havia encontrado meu caminho para o resto da vida e tudo parecia mais claro do que a água. Cheguei ao ponto delirante de admitir outras denominações como boas, que seus integrantes também eram salvos, mas que a “minha igreja” superava as demais, pelo simples fato das doutrinas serem mais próximas da verdade...

Meu primeiro grande desvio cognitivo! Uma viagem que quase me levou à ruína absoluta: distorção de valores, ruptura social – amigos, família –, tudo por água abaixo. Alienação total e neurose típica dos “escolhidos”. Assim minha mente foi formatada.

Depois do período pentecostal de lavagem do meu pequeno cérebro, fui conduzido à última fase: a confirmação emocional. Depois que fiquei imbuído do espírito de santidade, meu cérebro aumentou de tamanho, mas pelo excesso de estupidez e ela pesa. Era um separado para servir e isso mexe com a vaidade espiritual de qualquer um que acredita nessas coisas. Já pensou? Um escolhido de Deus? Pois é, assim encontrei a igreja certa e perfeita, uma “Assembleia de Alguma Coisa”, até que um dia, felizmente, acordei do pesadelo, da imbricação dogmática.

Foram anos de vida em uma nova experiência – algumas lições positivas, outras predatórias. Um mergulho na religião do Livro. A angulação mudou, a lente de imagem distorcida mostrava o paraíso ainda por aqui, com a extensão posterior, é claro. O reino por aqui significava a felicidade completa com a direção de Deus nos mínimos detalhes... A Bíblia era mais do que uma bússola, servia até para saber a hora do cafezinho, o que falar com os fulanos do caminho, as pessoas que deveriam ser doutrinadas por mim e a escolha, por inspiração divina, da minha cueca do dia...

O Livro santo era como o ar e a água, necessário à vida. Mas muitos anos se passaram em meio a dúvidas e o Livro ficava cada vez mais pesado. De engolir. Era, entretanto, a única alternativa conhecida por mim para chegar a Deus. Só em pensar em outros meios, os cabelos ficavam em pé, pois deixar o Livro seria negar a Cristo e passar a eternidade sem ele. Ideia assombrosa que me acompanhava. Passado um bom tempo, as sombras se dissiparam, o que me permitiu avaliar o quanto os religiosos destruíram os meus neurônios. Pus-me, então, a caminho da libertação e deixei a Igreja por uma questão cultural!

Quando toco neste assunto de razões culturais, os crentes me interpretam como pernóstico, mas é a realidade, pois o indivíduo que cultiva a razão e adere ao pensamento científico, não consegue viver no meio sectário, a menos que seja por interesses pessoais ou eliminação dos conteúdos acadêmicos. O conhecimento científico não pode conviver com dogmas religiosos. Se hoje contemplamos uma cena desgastada da ideia de Deus, deve-se isso exclusivamente aos livros que os homens chamam de palavra de Deus.

A ideia do Deus pessoal se esgotou. O Deus bíblico que se propunha a intervir nos negócios humanos caiu em desuso, talvez porque sua atuação não esteja mais convencendo os próprios fiéis. De um lado, a imagem do todo-poderoso, Pai de amor, com promessas infinitas, mas que emperrou na prática – deus do silêncio. Isto me lembra da história do garotinho pobre que pedia a Deus uma bicicleta todo dia e ela nunca veio. Ele percebeu que Deus não funciona dessa maneira. Então, o garotinho, cansado de esperar, roubou uma bicicleta e depois pediu perdão a Deus... Pedimos, pedimos e o silêncio permanece, mas Deus está ali. É só confiar. Depois de confiarmos, a vida passa. Na verdade, ele não estava ali como pensávamos. Tinha ido dar uma volta.

Quando cansamos do silêncio, achamos definitivamente que não somos ouvidos porque nossa fé não é mais a mesma, como a dos antigos, que movia montanhas. Conheci um físico teórico que se tornou um cristão metodista, lavaram-lhe o cérebro para que se sentisse cada vez mais culpado pela pobreza da sua fé, até que ele adoeceu e morreu de tristeza, culpando-se pelos próprios pecados. Enquadraram-no na visão clássica judaica do sofrimento: pecou, pagou! Quantas vidas se perderam nesse rumo?

Formaram-nos na cultura da bondade divina universal. Deus é sempre bom e nós sempre maus. Sabem o que acho de fato? Somos realmente maus, sempre tendenciosamente maus na prática e Deus eternamente bom no Livro, mas não na prática. Melhor interpretando, o deus criado no Livro é um monstro brincalhão... Um ogro santo e torturador ubíquo. Ora, Deus não seria isso.

Quero tocar num aspecto polêmico da crença: o que temos de melhor em nós? Exatamente o que queremos que Deus tenha em abundância, já que somos sua imagem e semelhança. A partir daí, esperamos, a qualquer custo, o amor absoluto de Deus. Amor justo, porque, pela razão de amarmos ou tentarmos amar, temos a sensação de sermos justos por entendermos que Deus é justiça pura. Em suma, projetamos no Ser maior imaginário aquilo que sentimos ser, para depois obtermos a recompensa dele. Fixamos assim a ideia de um ciclo divino. Chamo isso de catarse do desamparo.

Para nos desvencilharmos da ideia do “amigo imaginário”, temos que recomeçar. Reestruturarmo-nos para que fiquemos refratários aos falsos sinais do cérebro que chegam à mente, contando com o único meio defensivo disponível: o uso da razão. O cérebro quer preservar nosso equilíbrio psíquico, ainda que seja através dos meios ilusivos-cognitivos que tomam a mente de assalto. Por exemplo, sabemos que a questão da origem e evolução da vida na Terra já encontrou uma resposta satisfatória com o legado da obra de Charles Darwin. Então, qualquer explicação fantasiosa dada pela religião, não passa de mitologia dos tempos antigos. Logo, pensando com reflexão científica, o mito adâmico já caminha longe demais no século em que vivemos. A lenda de Adão e Eva tem um aspecto cultural desconcertante, ridículo e vexatório, sob a luz da razão, para ser levado a sério hoje.

Para considerarmos a ideia de desamparo, seria preciso que um deus qualquer tivesse antes nos amparado, independente da noção do Éden. Logo, construímos esse conceito para não termos que suportar o peso da solidão irreversível. Mas, ainda assim, seria mais fácil conviver com a ilusão do amparo do que com o insulamento do mundo sem Deus, onde nem caberia o conceito de um amparo qualquer. Debatemo-nos como insetos agarrados à crença num ser maior, pois a ideia do nada – a limine –, nos apavora.

Evitamos assuntos que nos amedrontem ou se desdobrem em argumentações que mexem com pontos de vista íntimos. Temos a religião como exemplo. As pessoas preferem não discutir verdades universais. Conservam as suas opiniões particulares, por medo e comodidade, fazendo uso de um instrumento social de defesa.

O ser humano, por ter a dúvida fazendo parte da sua natureza, recebe o encargo da religião: a obrigação de ter fé. Quem, então, teria a dimensão da fé bíblica? Ora, isso tudo faz parte de um projeto para encarcerar o homem, pois para termos esse modelo de fé, só enfiando a mão no bolso para tirar um santinho qualquer que sirva de referência. Qualquer santinho que se preze tem uma história – uma historinha cor-de-rosa.

Ninguém viu nem ouviu nada, mas a história do santinho de per si, mais o que o padre disse, confirmam a verdade. Sem contar com a pintura do beato, impressa no folheto, que também comove. O tal santinho teria vivido provavelmente no século XIII, na Alsácia-Lorena e curado uma criancinha de lepra quando essa veio lhe abraçar... Na verdade, as historinhas são todas inventadas. A partir daí, os teólogos, para dar corpo à historinha, enfeitam um pouco mais a invenção do populacho e beatificam o tal santinho séculos depois. Aos poucos, testa-se a reação dos devotos em cada caso. Tem que ser devagar para não ir contra os sentimentos do povo parvo, caso contrário não vamos ter uma canonização. Como diz o senso comum: “é assim que funciona”...

Pensando bem, nem precisa ser um santinho, qualquer filhote de Lutero serve como testemunho. Um caso ali, outro aqui, um versículo de apoio e temos uma história das grandes! Nas curas então nem se fala: bengala branca jogada fora; cadeira de rodas aposentada; a dor no ombro foi embora; o joelho ficou bom; resfriado também; a dor de cabeça passou; emprego novo da filha; marido que não bebe mais; “ô grória”; lencinho ungido na barriga para ter gravidez abençoada, “ô bênça”... Então, falou o incréu: “Larga de ser trouxa seu devoto e vai estudar!”.

Amantíssimos irmãos: Madre Teresa de Calcutá duvidou da existência de Deus por mais de quarenta anos! Então, quem sois vós, que tanta fala procede só da boca e não do coração? Quanto à atitude diante da vida a ser tomada, já que nos descobrimos meio preteridos pela divindade, falaremos mais adiante.

Na construção do cristianismo primitivo, desde as lutas entre os ebionitas, marcionitas, gnósticos e proto-ortodoxos, a arena dos confrontos era bem ativa até tomarem o caminho de Niceia. A partir do concílio, a beligerância teológica abrandou-se. Definiu-se, favorecendo os proto-ortodoxos. Mas é conveniente lembrar que os contornos doutrinários eram fornecidos pela teologia paulina.

No fio de uma análise crítica, voltemos o olhar para o apóstolo dos gentios. O cristianismo não teria a forma de hoje se não fosse delineado por Paulo. Os evangelhos difundiram-se depois das epístolas. Logo, elas conferem o tom e a dialética das vestiduras teológicas do cristianismo. O estranho, na arrumação do Livro, é que essas epístolas traçaram rumos dogmáticos ao ponto de suscitar querelas entre os próprios pais da igreja primitiva. Alguns até dizem que o apóstolo Paulo criou a cristandade a sua imagem e semelhança...

Não podemos negar que, considerando a história, houve uma construção teológica gradual da figura de Jesus – passo a passo – e não há como refutar o fato da ideia completa para perpetuá-lo. Ideia essa que extrapolou os textos canônicos; criou símbolos e alegorias, que são usadas por manipuladores até os dias presentes. Mas por que houve evolução dessa forma? Simplesmente, porque a verdade pertence aos filósofos, historiadores, cientistas e não aos seguidores da religião... Entretanto, nossas verdades religiosas são construídas com base na compreensão de mundo que nutrimos.

Na linha de raciocínio a priori, a Bíblia não se fundamenta na história, então, abre-se uma imensa janela para a licença poética de distorção. Porém, a finalidade do Livro não é outra, pois importa antes preencher as expectativas dos crédulos na sua visão de mundo, estabelecer a expectativa de verdade sem a preocupação de informações históricas corretas. Como? Sendo plausível com a compreensão do crente, a ficção se impõe como verdade histórica, adequada ao esperado por alguém que faz um acordo com os autores das Escrituras para encontrar o “jeito certo” de ser feliz. Esses contadores cristãos de histórias eram hábeis em agradar as massas e alimentaram a ilusão do povo com o primeiro livro de autoajuda no mundo.

Uma vez a fábula anunciada, desde que em nome de Deus, a força da linguagem vai conferir à lenda muito mais consistência, até que se torne uma verdade convencionada. Só que o mundo de hoje passou a prestar mais atenção a essas coisas e reconheceu a confecção mitológica das Escrituras, assim como a gigantesca oficina que forja os ilusionistas da fé... Essa é a razão do desgaste da ideia de Deus que chegamos, em pleno século XXI.

Bispos pentecostais, pastores e padres eletrônicos que disputam acirradamente espaço nas mídias, oferecendo curas fantasiosas – prosperidade como nova teologia. Já temos próteses clericais que se intitulam apóstolos, mesmo sem terem andado com Jesus, descendo de helicópteros particulares para fazer milagres no meio da multidão... Enfim, um absoluto festim social na busca do milagre, que nada mais poderia ser do que um efeito sem causa.

Esses heróis da fé duvidosa são os campeões da enxurrada do dinheiro fácil, que sai dos bolsos de apedeutas e que mantêm esses apóstolos como todo-poderosos da fé midiática. Torpes apóstolos com seus castelos de torneiras de ouro, inspirados em Hugh Hefner, como na mansão da Playboy. Qual a diferença? As torneiras e o espírito são exatamente os mesmos... Pintaram a cruz de dourado! Louvado seja o dólar, irmãos!

Até agora, vemos milhares de pessoas em situação silente. Por medo, já que ninguém quer se envolver em discussões que não costumam acrescentar nada aos seus bolsos. De mais a mais, tudo isso parece estéril, porque os humanos não se demovem dos seus pontos de vista religiosos, que são apenas estacas podres para as justificativas dos seus interesses pessoais. Ou pelo pavor da morte.

Assim, as pessoas falam de Deus como um discurso de hábito, não preocupadas com a retidão que o cristianismo propõe, mas apenas em repetir o que se conhece e que serve para todas as religiões. Por tudo isso, chegamos a uma situação irreversível de desgaste da ideia de Deus. O crente nunca se dá conta do grau de fundamentalismo em que está envolvido. Ataca os semelhantes na ânsia de doutriná-los para que não entrem na danação eterna, mas não conseguem parâmetros de equilíbrio e felicidade para as suas próprias vidas. Na verdade, as religiões só chegam a ser tolerantes quando não têm mais força para converter os outros. Então, surge o ecumenismo e cada macaco se limita ao seu galho...

Criamos Deus à nossa imagem e semelhança, mas, devido a tão pouca artesanía, fizemos um ser cheio de problemas, do sexo masculino, que só nos deixou a ver navios. Percebe-se, então, que não cabe nenhum tipo de revolta da nossa parte contra esse deus de plástico, o da religião, uma vez que é apenas uma construção imperfeita, por falta de técnica. Se a ideia do divino se desgastou de vez, é porque declararam a morte do deus da religião e sem muito êxito, pois temos consciência de que os mitos nunca morrem. No caso de Papai Noel é diferente: sabemos no fundo que ele existe e insistimos em não acreditar nele...


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segunda-feira, 8 de junho de 2015

O CINISMO CRESCENTE DA INDÚSTRIA DA FÉ

Tratei desse tema no meu livro A indústria da fé. Fi-lo com foco diverso anteriormente, agora quero de novo expô-lo sem rodeios e com foco mais estreito.

Existe algo assombroso no mundo de hoje que deve ser visto como uma emergência intelectual. É a crença cega, que pertenceu e deveria continuar pertencendo aos tempos antigos. A crença não evoluiu. As coisas mudaram e mais da metade da população da Terra continua a acreditar em besteiras por pura preguiça de refletir o mínimo sobre o que significa crer em algo de forma cega. Passados os séculos e o mecanismo da crença continua o mesmo!

Esse mecanismo repousa sobre paliçadas psicológicas: o instinto de rebanho, que é o devir absoluto de comunidade; de comunhão em diversos níveis, representa as estacas para a elaboração da religião. É inevitável a busca frenética por mistérios em tudo como combustível para a manutenção da fé e do encontro inadiável de significados que provoquem a sensação de eternidade.

Seguiu-se o repetitivo. Modelos existentes foram desdobrados e os humanos se fatigaram do ensino contraditório e confuso da religião. As pessoas se enjoaram com o mau-hábito dos religiosos: há séculos esmiuçando passagens bíblicas isoladas para justificar os seus interesses, inclinações íntimas, e essa atitude não é filosófica de per si – é apenas repúdio ao mau-hábito citado. A demonstração de cansaço dos modelos impostos pelo processo da civilização, um pragmatismo inevitável. Reconhecer o óbvio não deixa de ser uma ação pragmática. A religião chegou ao esvaziamento.

Se o mundo agora tende a ter o Deus bíblico como ficção, que deus deixaria de ser ficção? Quando me dizem “vai com Deus”; “fica com Deus”; “Deus te abençoe”, normalmente respondo: “Qual deus?”... Em resposta, ouço quase sempre: “Ah, mas Deus é um só”... Isto é um equívoco como declaração. Claro, pois para cada deus formatado, existe a razão básica para a sua formatação – a dogmática –, sem a qual Deus não é concebível. O religioso não identifica um deus sem o conjunto dos dogmas. Fica no escuro.

Enfim, encontraram o remédio no programa monoteísta e, depois, imprimiram a bula: o bom Livro. O único jeito encontrado pelo homem para que os devotos pudessem racionalizar tanta complexidade. Nesse faz de conta, o homini religiosi[1] descobre as suas referências de nobreza como um alvo e a simulação de certeza deixa de ser vergonha, suspeição, para se tornar algo elevado.

Nesse programa monoteísta, foi inserido o mistério da regressão infinita – Deus como criador do universo, o que propõe o criador de Deus –, dando-se por inventada a causa de si mesma... Mesmo se falando de monoteísmo, não adoramos o mesmo Deus. Porque caímos no plural: monoteísmos. Ainda que fosse um, as maneiras não deixariam de ser variegadas. Assim, foi proposta uma entidade superior, um ser mágico que reúne a causa de si mesmo e esmaga aqueles que não creem nele, porque os ama...

Por que a Igreja detém o monopólio da virtude? Tem origem no fole e na bigorna do pensamento distorcido, isto é, na antifilosofia. De acordo com Michel Onfray, “essa corja de uma filosofia que colabora – com a religião e o poder de Estado – já existe no século XVIII...”. Padres da igreja na posse da verdadeira filosofia, não só da virtude, mas o monopólio de tudo. “Todas as sabedorias antigas, por serem pagãs, são errôneas; todos os cristianismos alternativos, gnósticos notadamente, são heréticos, assim como os pensamentos autônomos ou independentes são proibidos de fato. A Ágora? O fórum? O jardim? Acabou-se... A igreja fica com o cacife e escolhe os trunfos episcopais – logo imperiais”. Essa Igreja que propala a felicidade suprema no céu, mas quer o poder no mundo. Pois, assim, nos legou Sêneca: “A religião é verdadeira para as pessoas comuns; mentirosa para os sábios; útil para os governantes”...

O que é a religião senão um anestésico brutal, que nos ensina a fórmula da felicidade por não entendermos o mundo e a vida? O real é substituído pelo imaginário com muita facilidade, pois as crenças não se fundamentam em evidências, daí virarmos presas fáceis pela nossa necessidade de crer em alguma coisa. Será que Deus, ao dar-nos inteligência, nos castigaria por usá-la? Aí está o problema, a brecha que faltava para o clero dominar o homem: a questão do medo e da culpa.

Os religiosos profissionais chegam na hora certa para explorar esses pontos fracos, como uma aranha usa a teia para imobilizar a presa. Importa que Deus seja exaltado, pois é preciso que se sobressaia o devir da alienação completa, que os seres humanos permaneçam anestesiados intelectualmente e, assim, a reflexão seja extinta no mundo de uma vez por todas.

Hoje, perplexos, assistimos a banalização das promessas que foram aceitas um dia como eternas. As instituições eclesiásticas caíram através do desgaste doutrinário, pelo que semearam. Então, chegaram os carniceiros clericais para se instalar na zona de conforto dos feudos, que eles ajeitaram convenientemente. Bispos, evangelistas, missionários e até “apóstolos”, atores histriônicos supervenientes, pululam, transitam em todos os níveis sociais, num esforço derradeiro para impedir que as ovelhas apáticas fujam do aprisco romano para o redil do fradinho Lutero...

Chegamos ao tempo do cinismo. O que é isso?!... Esgotaram-se os resquícios de dignidade no mundo da fé? Pelo contrário, a competição ficou mais acirrada. Reverências a Hobbes, porque “o homem vive em permanente estado de guerra com o seu semelhante e é uma guerra de todos contra todos”. A seleção natural-social, que teve seu início nos átrios sagrados, passou pelos púlpitos e se espraiou pelo mundo!

Não são meras diatribes o que faço a seguir, pois simplesmente não perderia meu tempo com críticas infundadas e vazias ao clero. O que registro tem o caráter de denúncia, também de apelo ao bom senso e à reflexão, na esperança de que as pessoas despertem de um sono de séculos, ou talvez milênios. Despertar não pelo uso da minha dialética mais do que modesta, mas pelos indícios de mudança nas fés pelo mundo, que são muito mais fortes do que em qualquer outra época da história. O homem sabe que foi enganado pela mentira de séculos, mas percebe que não há mais espaço no palco da falácia religiosa para atuar vida afora.

As coisas não são mais as mesmas, uma vez que respostas clássicas da religião eram em si suficientes para que o mundo continuasse com a sua trajetória cínica, sem tirar a poeira debaixo do tapete. O questionamento milenar sobre as fés canônicas, que outrora não chegava à ebulição, transbordou o bule. O ser humano está sufocado e caminha para a rejeição das transcendências. Isto tem que ser pensado e discutido, já que é sintoma grave.

Hoje, temos a vigarice institucionalizada. Líderes evangelistas encontraram a porta da festa escancarada e entraram sem convite! Descobriram a fraqueza do povo: o desespero da vida. Então, a convulsão social aumentou o nosso medo, a ânsia por segurança, e apagou o foco das verdades eternas para substituí-las pelo imediato – a busca da prosperidade, prato feito para o time dos profissionais da fé. A prioridade é a mesma dos não religiosos: o espaço aqui. Fala-se do céu, mas como pano de fundo de um cenário qualquer.

Miríades de pregadores, com a voracidade descontrolada, se organizam em redes mafiosas para perseguir o ouro e a prata. Fazem treinamentos intensos de impostação de voz com os seus sequazes, para que os tais simulem o mais fielmente possível o estilo de discurso do líder maior, o santo patrão. Normalmente, o cara é bispo – até apóstolo. Menos do que isso, como ostentação de título inventado não serve, não tem impacto. É a síndrome dos títulos eclesiásticos dos circuitos fechados alienantes. Pastor ou missionário não tem mais força popular. Apóstolo é porreta!

O gestual acompanha a mesma abordagem dolosa: movimentos e gestos do líder escolhido devem ser imitados para que a imagem do tal se consolide com sucesso na mente do povo. Os líderes evangelistas, usando técnicas teatrais, fixam a sua imagem a qualquer preço... Elaboram um branding[2], fazem pastiche, imitam as agências de propaganda. Esses monstros predeterminam estilos comportamentais de fala, gestos, reações, olhares ensaiados, enfim, o típico encarceramento perceptivo imposto. Porque existe a necessidade de criar um rótulo, que recebe autenticidade a partir de um conjunto de ações que sustente uma teologia qualquer.

As idiossincrasias introjetadas no devoto vão construir um “modo teológico”, uma diferenciação qualquer, intuída, para concretizar novo grupo social na igreja. É preciso a implantação de novidades para atrair o povo, pois a vida é um processo em constante mudança. Na indumentária dos fiéis, nos gestos de piedade assentados por intuição, que seja um código implantado e embebido em vaidade, uma vez que o crente precisa ser identificado por seus iguais, como pelos líderes. Não importa o grupo cristão, dos mais despojados aos mais paramentados, da Igreja de Roma ou de Lutero, o processo é o mesmo na preparação das ovelhas: a implantação da culpa e do medo.

Por que o ensinamento moral tem que ser permeado pelas fantasias e ameaças de danos eternos como propõe a religião do Livro? É fácil entender: sem ameaça, medo e culpa as pessoas não são doutrinadas com sucesso. Nessa linha de raciocínio, como então dogmatizar um desigrejado? O ensinamento que uma criança recebe dos seus pais não vem acompanhado de dogmas, mas sim embasado com a simplicidade do bom caminho que ela deve seguir na vida. Do mesmo jeito que a boa moral não vem da Bíblia, que não é parâmetro para o nosso tempo. Vem dos pais, da família, dos professores e amigos verdadeiros. Ora, nem toda família tem condições de transmitir princípios morais elevados, porém, muito menos um livro escrito há milênios, quando as regras sociais e as leis eram completamente díspares das que temos hoje, a exemplo de apedrejarem a mulher ou os próprios filhos até a morte quando cometiam certos pecados previstos na lei de Moisés...

Hoje, temos na pista do ouro a mais nova invenção evangélica: a teologia da prosperidade. Foi plantada a semente da cobiça pelos abutres da fé, a pastorada da corrida do ouro, hoje encontrada no bloco da neopentecostalhada – fazendo a massa pobre e desfavorecida acreditar que o reino de Deus é a busca pela prosperidade. Os fiéis miseráveis, nos estertores pessoais, com fome, sem saúde, sem emprego, não têm possibilidade de pensar na salvação da alma. É aí que entram os apóstolos da teologia da prosperidade, porque esse negócio de “salvação” ficou para trás – o que vale é prosperar!

Seriam, por acaso, traços de uma herança judaica recrudescente com o neopentecostalismo? Repare-se que o cristianismo é nada e tudo ao mesmo tempo. É como o chocolate, com mil maneiras de ser apresentado e, no final, tudo é chocolate. Escamoteando aqui e ali, consegue-se atender ao gosto mais exigente no self-service da teologia que temos ao alcance. Outros grupos, entretanto, da mesma seara dos evangélicos, se escandalizam com tal teologia e abominam a busca da prosperidade como meta de fé, esses são os pilares da fé, os crentes “das antigas”...

Assim, os monstros de Deus, que furtam a massa de manobra santa, separada para servir, mas também cheia de dolo, marcham triunfantes em direção a – Jesus? Ou a auri sacra fames[3]? Esses monstros do púlpito sequestram a programação normal dos meios de comunicação para construir a própria imagem de grandes heróis da fé, que não passam de anões viciosos e anticristos absconditus[4]... Se eu pudesse compará-los a animais, situar-se-iam próximos ao dragão de Komodo[5], que esperam as presas com paciência.

Esses líderes, vampiros-clericais, exploram a cura divina como uma alavanca emocional, que aplicam no público. Utilizam fotos dúbias para exibir o antes e depois de doenças escabrosas, onde predominam acidentes dermatológicos repugnantes, que deixam o público ainda mais impressionado. Perfeito apelo emocional, bem engendrado, para que seja mantido o deslumbramento com a “cura” alcançada. O espírito é tão bem envolvido que os olhares mais analíticos são logo desviados através dos truques e milagres, confirmados pela eloquência do pregador histriônico.

Em meio à teatralidade recorrente, predominam as dores no ombro, no pé, no joelho, que acompanhavam a vítima até aquele momento. Depois da oração a dor some. Outros, que chegaram sobre cadeiras de roda, voltam sem elas, mas tortos, capengando... Continuam aleijados e agora sem as cadeiras. Bem que poderiam pendurar uma faixa no evento: “Festival do êxtase religioso neuropatológico da prosperidade”.

As promessas são variadas para a cura: dos cânceres mais enraizados às dores de cabeça mais inocentes, passando pela experiência da cura total da aids, bem como a solução da cegueira, da surdez e outras tantas mazelas presenteadas pela natureza, ou pelo Diabo. Se não foi curado, não é porque a oração do pastor falhou, é porque a fé do freguês não serve para nada. Problemas financeiros, no casamento, com os filhos, tudo pode ser resolvido pela fé, ou não, mas sempre solucionado independente de qualquer oração. Se o devoto rezar, pode demorar até uma semana para o problema ser resolvido, ou não. Mas se ele não rezar, o problema pode durar até sete dias...

O clero jamais revelou ao público que orar por um milagre é a mesma coisa que esperar as leis do universo mudarem em favor de um indivíduo e dos seus interesses, contra o desamparo de outro, talvez mais merecedor de um milagre. O clero é tão melífluo que nos induz ao egoísmo, à egocêntrica, fazendo-nos acreditar como idiotas que somos merecedores da alteração das leis do universo em favor dos nossos interesses pessoais. Daí, esse mesmo clero, para despistar o egoísmo que retemos, induz-nos a orar para agradecer as bênçãos supostamente recebidas e a interceder pelo nosso próximo. De pronto, nos sentimos fortalecidos, até que a culpa volte para os nossos ombros. Depois, nos coloca de novo na pista para perseguir os interesses materiais, que são os deles no final. Se falharmos, a falha é da nossa fé, ou, então, o tempo de Deus para que algo sobrenatural acontecesse não chegou.

Devemos recomeçar, filiados a um templo, é claro. É ali que acontece uma sinistra doação de sangue. A agulha fura a nossa veia e o sangue flui. Somos esvaziados. Desaparece a alegria pessoal em troca da alegria coletiva, oriunda de um método pietista qualquer. Vai embora o que nos é mais caro: a individualidade e o poder de reflexão. Nessa transfusão metafórica, nosso dinheiro também se vai... Entregamos o dízimo e as ofertas alçadas. Alguns passam fome para dar o dízimo e as ofertas. A bispalhada, entretanto, não gosta do termo “dar” o dízimo, dizendo que, se não for cumprido o ato, significa roubar a Deus. Não é dar, é pagar! Mas que história é essa de dízimo? Até onde sei é um rito antigo, destinado aos hebreus e repassado pelos levitas ao Templo na forma de colheitas periódicas. Ordenança para o antigo “povo de Deus”, portanto, os gentios não foram obrigados a tal proeza. Mas, se essa obrigação não fosse também destinada aos gentios que entraram pela janela, por que a pastorada imporia o jugo da lei aos libertos da lei?

Não dizem as Escrituras que “aquele que quiser guardar a lei e tropeçar num só ponto torna-se culpado de todos?”... Por que os pastores sugam as ovelhas, através de ofertas, dízimos, ao aplicar até o uso covarde de carnês, cartões de crédito e outras firulas contemporâneas? Já não basta proteger um deus que se sente roubado nos dízimos? Advogados do Diabo que atendem outro cliente? Quer dizer que o gentio não pode guardar nenhum item da lei, mas pode quebrar a lei sendo obrigado a pagar o dízimo, uma vez que essa lei é apenas destinada aos judeus? Povo ignorante que gosta de ser enganado! Esse povo tem dolo no coração, pois busca com extremo esforço a prosperidade e as posições sociais de destaque. São mestres da troca.

Pastores de Israel que se alimentam da gordura das ovelhas! Todos conhecem o mito de Vlad Tepesh, bem romântico, mas me refiro apenas aos vampiros do púlpito – recorrência mais grave e desoladora. Condicionar pessoas a um sistema, ao escravizá-las intelectualmente, fazê-las “felizes” apenas na condição de grupo dogmatizado, é roubar-lhes a identidade, privá-las de liberdade, imputando-lhes a cultura do “tudo é pecado”. Prática que significa sugar-lhes o sangue vampirescamente. Assim é o clero doloso, notívago, pelo hábito das sombras – hematófago em busca dos submissos. Não preserva a saúde espiritual dos devotos, nem se preocupa com o seu equilíbrio emocional, tampouco a felicidade, mas sim com a míngua que eles guardam nos bolsos, coitados. Se forem milhares de bolsos, ainda que com modestas quantias, muitos serão os milhões que fluirão como rios de água viva direto para os cofres pastorais. É na quantidade que eles ganham e ainda dizem: “Eles querem doar, nós não pedimos”... Pedem sim! A todo instante, mesmo indiretamente. As religiões mais tradicionais são reservadas e o fiel nem vê o sangue sair. Mas as “neo” alguma coisa são bem mais descaradas, vivem para o dinheiro. Com a paz do Senhor, pagou, levou! Bênçãos dos céus e promessas de prosperidade. Até o Vaticano tem um banco – e o clero se devora!

Como fé é a mesma coisa que ignorar a verdade, com boa dose de teimosia dos crédulos, o clero se aproveita dos iludidos. Esses tais comem quilos de ilusão, gostam disso, precisam disso, como viciados em sexo mental. Alimentam as ilusões porque têm medo de que lhes faltem os sonhos dourados, que são mantidos pelo “amigo imaginário dos adultos”. Então, a porta está aberta para os abutres fideístas, num ato prometeico. Lá se vão os fígados dos crentes... Diz o líder santo: “Bem-me-quer, mal-me-quer, eu fico com a grana e vocês ficam com a fé”.

Veja-se que o surto do circo neopentecostalista ainda permanece montado. Até que a moda passe. Quando os crédulos perceberem que a moda não era mais do que uma arrumação pantomimada, que as “curas” eram resultado de puro desvio cognitivo, enfeitado por um espetáculo neuropatológico, aí sim, terão que enfrentar a realidade cruel: nada disso é uma questão teológica, mas científica. Facilmente explicável pelos psiquiatras. Já dizia Lawrence Krauss: “A ciência tem sido eficaz em promover nossa compreensão da natureza porque o ethos científico é baseado em três princípios: 1) siga a evidência aonde quer que ela o leve; 2) se alguém tem uma teoria, precisa provar que ela está tão errada quanto certa; 3) o árbitro supremo da verdade é o experimento, e não o conforto que se tira das suas crenças a priori, nem a beleza ou a elegância que se atribui aos próprios modelos teóricos”.

Nessa linha, segui a evidência. Quando, anos passados, pesquisei de perto a onda das curas divinas, em igrejas que eram referência no tema, fui vítima de desvios cognitivos e acabei por me filiar a uma dessas instituições, que por pouco não destruiu a minha vida. A tônica era a cura divina, portanto embarquei. Depois de algum tempo, parei para analisar os casos estranhos que me chamaram a atenção por serem duvidosos, virando alvo de pesquisa. Foi medida empírica, mas apliquei a seguinte divisa: a dúvida de tudo. Descobri o que não queria – uma conjuntura fraudulenta –, pois busquei muitos líderes para obter respostas. Aquele que mais me chamara atenção, missionário que operava “milagres autênticos”, foi denunciado com o seu esquema e preso por atentar contra a fé pública. A Igreja, então, como um autêntico Tribunal do Santo Ofício, para não se comprometer, queimou o pastor na hora certa.

Descobri porque questionei. Cheguei, então, à conclusão clara e convicta de que todas as “curas” aconteceram na minha mente, amparadas pelos artifícios dos mágicos que desviam nossa atenção do centro do truque aplicado. Com certeza, o truque consistia na desestabilização emocional do público presente, levando todos às lágrimas... O espetáculo tinha o apoio dos gritos histéricos, hinos em volume alto, desvio dos olhares para bengalas brancas sendo arremessadas, feridas abertas e infeccionadas, indução a orações intermitentes para manter o clima, aparência de autoridade crística do líder, êxtase contínuo para disfarçar, enfim, atitudes cênicas variadas para reforçar os milagres... A maioria era mantida crédula, inclusive eu, que aceitei o engodo com medo de duvidar de Deus. Descoberta a fraude, o milagreiro foi execrado, principalmente pelos irmãos da própria fé. Depois, sem desafinar o tom, a igreja providenciou outro missionário de curas divinas para não perder a concorrência com igrejas da mesma linha. Lógico, com a adoção de novas técnicas e artimanhas.

O novo missionário, sucessor do embusteiro, tinha um topete nojento, que não lavava nunca e o colarinho tão ensebado, que virou gozação entre os fiéis. Os crentes chamavam-no de pastor “cabeça de sebo”... Mas era santo. Faltava-lhe o pescoço, por ser tão curto, nem virava direito. Comerciante e dono de muitas lojas, gostava de olhar para os outros com ar professoral, empoleirado no púlpito. Aconteceu que, mesmo velho que era, envolveu-se num escândalo com uma jovenzinha, motivo para o fim da sua carreira funesta... Menos um santo no rol dos oportunistas. Enfim, o povo alimenta seus líderes famintos.

Povo estúpido. Carente e com aparência de coitadinho. Mas talvez nem seja tão coitado, pois também é doloso. No fim das contas, todo mundo quer a mesma coisa: o reino de Deus, mas antes ajeitar a vida por aqui... Alguns, até parecem buscar primeiro o reino e a sua justiça, para depois ajeitar a vida. Comigo, há muitos anos, não deu lá muito certo priorizar o sonho, pois caí no real, meu burrinho escorregou e se estropiou. Bem, pelo menos tentei prestar um serviço a mim mesmo, vivendo a fantasia como eles mandam, mas nem tudo foi perdido, pois tive a oportunidade e o privilégio de ajudar bastante a pastorada a prosperar. Um deles, inspirado, até me disse que Deus vai me recompensar no céu por tanta generosidade com a Igreja. Ruborizei-me de emoção. Então, pude dormir tranquilo com a bondade de Deus...

Se o engano existe é porque o povo o cultiva. Em todos os níveis – da política à religião. De que adianta, portanto, varrer o sectarismo da face da terra? Enquanto só existir um humano nesse planeta, a religião existirá com ele, porque o homem insiste que tem necessidade biológica de crer em alguma coisa. Vai ver que não passa da crença na sensação – de fé; de proteção; de amor; de justiça; de eternidade.

A fortiori ratione, o presente livro é escrito, não como diatribes em oposição à Igreja, mas como um bloco de texto em que insiro denúncia contra o sectarismo e o testemunho que me preocupei em buscar incansavelmente: algo verdadeiro oculto por trás da religião. Ninguém me ajudou, achei o atalho sozinho, por isso estou certo de que posso dar uma pequena contribuição àqueles que se encontram sufocados pela religião, como eu estava no passado. Afinal de contas, nunca é tarde para prosseguirmos em busca da verdade.


[1] A figura do religioso.
[2] Processo publicitário de fixação de imagem, de marca ou logotipo.
[3] “A sagrada fome do ouro”.
[4] Escondidos.
[5] Lagarto peçonhento da Indonésia que morde as vítimas, para depois devorá-las lentamente.


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