segunda-feira, 25 de maio de 2015

REAPRENDENDO A PENSAR

Por que reaprender a pensar? Simplesmente para juntar os cacos quebrados e usar nosso maior dom, o poder da reflexão. É um processo que envolve um retorno gigantesco do ponto em que chegamos ao ponto de partida. Do desvio cognitivo ao ponto de restauração – para que haja reparo da nossa equivocidade cognitiva e recuperação do tempo perdido. Isso é mais do que um ato de humildade. Requer vontade, coragem, apego ao conhecimento e inconformismo com o senso comum.

Quando despertamos para as verdades científicas, não fica difícil perceber logo de saída que a verdade absoluta pode até não existir. Portanto, a afirmação de que cada um tem a sua verdade é uma premissa falsa mantida pelas assertivas do populacho.

Esse tipo de coisa é o que encoraja a sustentação alucinada de tantas verdades extravagantes que circulam pelo mundo. Mas é a crença particular no método científico que nos dá um tipo de verdade diferente das outras: a que pode ser demonstrada com os seus resultados evidentes. Universais e não individuais. A ciência não joga com baboseiras esquizoides ou “achismos” alternativos. Uma verdade científica, quando comprovada, não muda a vida romântica de um indivíduo, muda a humanidade.

Então, como pensar? Como ordenar o pensamento para não dar voltas no deserto? Normalmente, não olhamos a vida por um prisma simples. A própria ciência conserva os seus métodos que funcionam baseados na simplicidade. Mas se a verdade absoluta não existir, o que nos vai restar então? Resta-nos já, de invariável meio, a adoção de uma divisa: a dúvida de tudo. A partir daí, só a verdade científica poderá produzir provas e nos dar respostas reais. Então, à luz do cientificismo, uma verdade será absoluta, uma vez comprovada, na medida em que seu núcleo se enriqueça com a adição de outras verdades comprovadas, que gera um processo evolutivo do absoluto expandido.

Um exemplo disso seria a teoria da seleção natural de Darwin, provada verdadeira no século dezenove e hoje, enriquecida por novas descobertas (no campo da genética), nunca perdeu o caráter absoluto de verdade. A teoria da seleção natural foi amplamente demonstrada por mais de cem anos. Se caminharmos, entretanto, pelos atalhos da razão, a filosofia vai sempre questionar a “verdade absoluta”, pois é notório que teorias científicas do passado foram enriquecidas com o pressuposto de serem verdades absolutas.

O que pretendo mostrar com isso é que, mesmo em meio a um turbilhão de palpites e opiniões infantis, na tentativa de passar por coisa séria, uma verdade só é passível de ser comprovada através do método científico. Nunca pelas pobres divagações religiosas em que o clero tenta se escorar.

Dentro dos mesmos princípios, Richard Dawkins[1] desfaz mal-entendidos que comumente geram confusão: “A ciência não pode responder se o aborto é um procedimento incorreto, mas ela pode mostrar que o continuum (embriológico), que liga de maneira ininterrupta um feto desprovido de percepções a um adulto dotado de consciência, é análogo ao continuum (evolutivo), que liga os humanos às outras espécies. Se o continuum embriológico aparenta ser mais ininterrupto, é somente porque o continuum evolutivo é dividido pelas contingências da extinção. Os princípios fundamentais da ética não deveriam depender das contingências acidentais da extinção. Para dizer uma vez mais, a ciência não tem meios de responder se um aborto é um assassinato, enquanto matar chimpanzés não é. É preciso ser coerente. A ciência não tem meios de responder se é errado clonar um ser humano completo. Porém, ela pode esclarecer que um clone, como a Dolly, nada mais é do que um gêmeo idêntico, embora de idade diferente. A ciência pode nos ensinar que, se quisermos nos opor à clonagem dos humanos, não devemos apelar para os argumentos do estilo ‘o clone não seria uma pessoa inteira’ ou ‘o clone não teria alma’. A ciência não tem como responder se as pessoas têm alma, mas ela pode afirmar que, se os gêmeos idênticos têm almas, então os clones como a Dolly também têm. É preciso ser coerente. A ciência não pode responder se a clonagem de células-tronco para produzir ‘órgãos avulsos’ é incorreta. Mas ela pode nos desafiar a explicar de que maneira a clonagem de células-tronco difere, do ponto de vista moral, de outro procedimento aceito há muito tempo: a cultura de tecidos. A cultura de tecidos tem sido há décadas um dos principais suportes da pesquisa sobre o câncer. A famosa linhagem de células HeLa, que se originou da falecida Henrietta Lacks em 1951, é hoje cultivada em laboratórios por todo o mundo. Um laboratório padrão, na Universidade da Califórnia, produz 48 litros de célula HeLa por dia, como um serviço de rotina para os pesquisadores da universidade. A produção diária mundial total de células HeLa deve pesar algumas toneladas – toda ela um gigantesco clone de Henrietta Lacks. Durante o meio século desde que essa produção em massa começou, ninguém parece ter feito objeção alguma a ela. Os agitadores que se unem para pôr um fim à pesquisa com células-tronco hoje em dia, precisam explicar por que razão eles não se opõem ao cultivo em massa de células HeLa. É preciso ser coerente”.

Parece que o mundo está grávido de outro mundo. Muito bem, é hora de se questionar tudo: raça, etnia, minorias, opção sexual e outros. Por que, então, não podemos discutir a opção dos que não creem em mitos, religiões ou no próprio Deus?

Richard Dawkins traz à tona um discurso de seu grande amigo Douglas Adams, em 1998:

“Ora, o método científico é, estou certo de que todos vão concordar, a mais poderosa ideia intelectual, a mais poderosa estrutura para a reflexão, a investigação, a compreensão e o enfrentamento do mundo à nossa volta, e ele se baseia na premissa de que toda ideia pode ser atacada. Se resiste ao ataque, ela sobrevive, e, se não resiste, então ela vai por água abaixo. Com a religião as coisas não se passam dessa forma. A religião tem certas ideias centrais, que chamamos de sagradas ou de divinas ou de seja lá do que for. O que isso significa é: ‘Eis aqui uma ideia ou uma noção que não pode ser alvo de críticas; isso simplesmente não é permitido. E por que não? – Porque não!’. Se alguém vota num partido cujas ideias não aprovamos, somos livres para argumentar contra elas o quanto quisermos; haverá atritos, mas ninguém se sentirá lesado por isso. Se alguém acredita que os impostos deveriam aumentar ou diminuir, somos livres para divergir de tal opinião. Mas, por outro lado, se alguém diz ‘Não posso mover uma palha no sábado’, nós dizemos ‘Eu respeito isso’. O estranho é que, enquanto estou dizendo isso, me surpreendo pensando: ‘Será que há algum judeu ortodoxo na plateia, que se sentirá ofendido pela minha fala?’. No entanto, eu não teria pensado: ‘Talvez haja alguém de esquerda ou alguém de direita ou alguém filiado a esta ou àquela visão em economia’, enquanto levantava outras questões. Tudo o que eu pensaria em relação a isso é ‘Muito bem, nós temos opiniões diferentes’. Mas no momento em que digo algo que tem relação com as crenças (vou arriscar meu pescoço aqui e dizer) irracionais de alguém, então nos tornamos todos extremamente paternalistas e terrivelmente defensivos e dizemos: ‘Nós não atacamos isso; trata-se de uma crença irracional, mas, não, nós a respeitamos’. Por que será que consideramos perfeitamente legítimo apoiar o partido Trabalhista ou o partido Conservador, os Republicanos ou os Democratas, esse modelo econômico em oposição àquele, o Macintosh em vez do Windows – mas ter uma opinião sobre o modo como o universo começou, sobre quem criou o universo... Não, isso é sagrado? O que isso significa? Por que razões ergueram uma cerca protetora em torno disso, senão pelo fato de que simplesmente nos habituamos a fazê-lo? Não há absolutamente nenhum outro motivo; trata-se apenas de um acordo que se desenvolveu insidiosamente e, numa espécie de círculo vicioso, tornou-se muito, muito poderoso. Assim, nos acostumamos a não desafiar as ideias religiosas. Mas é muito interessante o furor que Richard cria ao fazê-lo! Todos ficam absolutamente enlouquecidos, pois não é permitido dizer tais coisas. E, entretanto, quando as examinamos racionalmente, não há nenhuma razão por que essas ideias não devam estar abertas ao debate como qualquer outra, exceto pelo fato de que, de algum modo, chegamos a um acordo entre nós de que elas não deveriam estar”.

Voltaire disse que “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”. Cá entre nós, Voltaire não mais do que representava uma forma caduca e indolente de divindade, o deísmo... Aqui, voltamos ao problema da biologia da crença: a figura de um ser superior está arraigada em nosso cérebro. É algo que nasce com o homem. Vem no leite materno em bruto e é trabalhado na mente da criança desde cedo, logo é uma ação neurofisiológica.

Considero firmemente que a razão da existência da crença em uma força superior reside, desde a infância, no problema do medo. Esse medo começa no momento em que se entra no mundo, pois saímos da casa de origem: o útero materno. Começamos, então, a jornada numa nova morada – provisória. Portanto, retomo os mesmos princípios aqui e ali, pois são viscerais. Argumentos basilares sobre a existência de Deus, porque estão no interesse de todos, ainda mais sobre as nossas crenças, fatores determinantes e “transformativos” de vida.

A neurociência já demonstrou que a mente é originada da substância física do cérebro e, diante dessa perspectiva, o projeto de alma fica um tanto desabrigado. Aliás, todo o design inteligente. As explicações dúbias, improváveis e fantasiosas, ficam por conta da religião – o mundo como as pessoas desejam que ele seja, mas não como ele é realmente.

Importante, também, é o entendimento de que, se o cérebro fornece escapes fantasiosos à mente e mostra um mundo utópico às vezes, é pelo equilíbrio emocional do indivíduo. Agora, cabe à mente a tarefa de seletor, num exercício do pensamento correto, a prática no desprezo ao caminho fácil e o convencimento de que o método científico é o meio certo para o saber pensar.

Como não podemos ser imortais, o cérebro outorga à mente a possibilidade de desenvolver um tipo de pensamento bastante positivo como fator biológico, até recorrente entre os franceses: Pourquoi y-a-t-il quelque chose plutôt que rien?[2] Também, a ideia de que um ser amoroso cuida de nós, por existir um plano especial nas nossas vidas criado por esse ser amoroso, teríamos sido escolhidos por alguma razão para fazermos parte de algo maior no universo.

O reaprender a pensar, então, implica em apurar a mente como seletor para que o cérebro “entenda” que pode dar suporte a essa mesma mente através de informações neurais, ao atuar num processo em constante evolução.

Precisamos entender as coisas como se encaminham no presente século e tratar a miopia intelectual da qual somos reféns. Em absoluto, não se trata de deicídio, tampouco de matar a espiritualidade em nós, mas de reinterpretar a espiritualidade verdadeira como compromisso com o ser moral e com todos os valores que a religião sequestrou de quem de direito: o homem comum. Essa mesma religião que metabolizou o que era próprio do homem administrar para devolvê-lo como uma regurgitação.

Certa vez, ouvi sobre um sacerdote cristão da sua renúncia ao cristianismo. Ele, quando leu A origem das espécies de Darwin, abandonou a Igreja e apontou o ateísmo como única opção honesta no mundo. Argumentava que um deus de amor não teria idealizado um modelo de existência onde a lei dominante é a luta monstruosa pela sobrevivência num planeta superlotado e ruim.

O sacerdote questionava como um deus de amor poderia estabelecer princípios onde a violência da competição teria, entre os animais e os homens, como regra básica, o resultado da crueldade que vai determinar a sobrevivência dos mais fortes. Aquele que melhor se adapta é o que sobrevive... Que deus é esse de tanto amor que projeta as criaturas para se dilacerarem e infunde nelas, ao mesmo tempo, a capacidade de sentir dores intensas? Que deus é esse que nem ao menos anestesia suas criaturas na hora de serem devoradas?...


[1] Zoólogo e filósofo famoso pelo seu ceticismo, nascido em Nairóbi, Quênia, em 1941.
[2] Por que existe algo e não apenas o nada?

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domingo, 24 de maio de 2015

POR QUE CREMOS EM ALGO?

Somos uma máquina de superstições no dia a dia. É claro que muitos conseguem atingir o estado ilusório de superação desse mal através de certos princípios de fé. No cristianismo, por exemplo, ser supersticioso significa falta completa de libertação espiritual diante da própria comunidade de irmãos. Na tentativa interior para ocultar dessa mesma comunidade qualquer traço de sentimento supersticioso, o crente dissimula seu pânico íntimo. Finge uma atitude de autodeterminação para não transparecer suas figuras imaginárias e monstros do subconsciente.

Todos os medos agora estão bem administrados, escondidos e entregues ao Eterno. Mais uma vez, a opção se repete: o mundo da fantasia ocupa o lugar da realidade. A Igreja combate a superstição grosseira com a superstição de refino, lapidada, pasteurização de tudo. O que Deus pasteuriza não é discutível – acta est fabula![1]

Nossa natureza anseia por fantasmas. Somos sonhadores natos, inclinados à fantasmagoria. Conferimos valores e significados às coisas sobrenaturais como algo imprescindível a nossas vidas. Para os fideístas, esses fatos originam-se no sobrenatural e são projetados no mundo. Para a ciência, têm fluxo na mente e não passam de ilusões aleatórias, geradas em bruto pelo cérebro.

A crença em duendes, espíritos e fenômenos paranormais são produtos da inferência paradigmal injuntiva. Assim, esse tipo de ocorrência “sobrenatural” assume um aspecto de verdade, pois o crente considera a proposição das ocorrências transcendentais uma certeza absoluta.

Entretanto, essa “certeza absoluta”, fabricada na mente do fiel, é abalada pela dúvida, uma vez que as fontes das nossas certezas permanecem falíveis. O princípio fundacionalista do conhecimento busca pilares para alicerçar as crenças. Assim como os intrincados processos cognitivos são responsáveis pela consciência e pelo conhecimento, nesses processos há desvios cognitivos, que vamos encontrar na esfera das crenças especialmente.

O crente acaba por sucumbir à esteira do solipsismo, que nada mais é do que chegar ao ponto extremo de se convencer de que o conhecimento se baseia em situações de experiências interiores e pessoais. Assim, a tendência do crédulo no além é valorizar apenas suas experiências espirituais como verdadeiras, porque, para o religioso solipsista, só a sua experiência é autêntica.

Constrói-se esse tipo de comportamento apoiado na muleta dos dogmas, na intransigência e no fundamentalismo. Comportamento que resulta da mistura de um solipsismo contumaz e uma atitude farisaica de subserviência para bajular a clericalha. Toma lugar, assim, a consciência coletiva dos grupos religiosos.

Temos um desvio congênito: a necessidade de venerar algo em resistência aos princípios da racionalidade. Essa medida imposta pelo cérebro estabelece paradoxos: quanto maior a absurdidade do fato espiritual, mais forte será a nossa crença nele e o sectarismo vira uma máquina ontológica de moer carne...

Nosso cérebro constrói aquilo que se conhece como mente, portanto, essa coisa falaciosa de priorizar a ideia de mente isolada da atividade cerebral é uma peça da religião pregada nos crédulos, que vivem nas nuvens cor de rosa. A mente é apenas o resultado das conexões neurais em atividade.

A crença sectária pretende anular esse princípio, já assentado pela neurociência, para distorcer o cientificismo legítimo, abrindo um imenso leque de embromações amparadas pela fé. Um festim religioso com os truques do custo-benefício oferecido pela Igreja. A convicção sectária é pior: escraviza, subverte e faz o sentido inverso, passa pela mente para retornar ao cérebro. Esse estágio só acontece quando se define a confirmação emocional da crença.

A dopamina é um neurotransmissor presente na suprarrenal e indispensável para a atividade normal do cérebro. Essa substância química transmissora é chamada por Michael Shermer de “a droga da crença”. O doutor Shermer expõe assim a atuação da dopamina no cérebro: “A conexão de dopamina e crença foi estabelecida por experimentos que Peter Brugger e sua colega Christine Mohr conduziram na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Explorando a neuroquímica da superstição, do pensamento mágico e da crença na paranormalidade, Brugger e Mohr descobriram que pessoas com altos níveis de dopamina têm maior probabilidade de encontrar sentido nas coincidências e descobrir significados e padrões onde eles não existem. Em um estudo, por exemplo, eles compararam vinte pessoas que afirmavam acreditar em fantasmas, deuses, espíritos e conspirações, com vinte pessoas que se declararam céticas em relação a esses fenômenos. Exibiram a todos os sujeitos uma série de slides com rostos de pessoas, alguns normais e outros com certas partes embaralhadas, como olhos, ouvidos ou nariz trocados. Em outro experimento, palavras existentes e misturadas foram exibidas. Em geral, os cientistas descobriram que os crentes tinham muito mais probabilidade que os céticos de avaliar um rosto deformado e uma palavra embaralhada como normais”.

Pelo fato de não sermos monistas por natureza e sim dualistas, entendemos (por cognição desviante) que nossa mente existe de forma independente do cérebro. Lógico, é o meio que temos para perpetuar nossa mente (como alma) no céu futuro, independente do corpo. Essa é uma tendência difícil de ser dissipada.

Quase todos nós precisamos da ideia de paraíso, por essa razão o cérebro ajuda a nossa mente a produzir o que queremos para estabilizar as emoções. Mas, deixando de lado a ilusão, os desejos e ideais, quando o cérebro acaba a mente também se extingue. A mente é apenas o que o cérebro construiu em vida. Se não há conexões neurais, não existe mente.

Não podemos culpar o cérebro por “dar” à mente religião. Nosso instinto é de rebanho e a mente “pede” ao cérebro a fantasia, por isso o cérebro, como pai protetor, atende a exigência biológica em prol do equilíbrio orgânico, para que se vislumbre a felicidade do paraíso almejado.

Não sei o porquê, mas a seleção natural nos brindou, de forma paradoxal, com a crença nas coisas que não existem – fomos programados para tal com a catarse psicorreligiosa. Mesmo que não acreditemos em Deus, existe o lado biológico da crença: a ideia da figura de um ser superior latente plantada em nosso cérebro. Por essa razão, as crenças afloram facilmente, embora como cognições desviantes, em um processo de confirmação que o próprio cérebro corrobora.

O cérebro participa desse processo porque seu objeto é o equilíbrio da mente – das emoções –, num sentido biológico construtivo. De novo, podemos observar a constante da inferência paradigmal injuntiva na fabricação dos modelos que precisam ser confirmados. O último degrau no reforço da crença, portanto, é a sua sustentação através de argumentos considerados racionais.

São os desvios cognitivos os responsáveis por adaptar as referências que chegam através dos nossos sentidos, moldando a interpretação do que queremos do mundo e não as dores que a realidade do mundo nos apresenta. Este é o modus operandi do cérebro: pinçar as referências da crença que possam dar equilíbrio emocional e biológico ao indivíduo. Ao confirmar as convicções ideológicas no córtex orbital frontal, que processa as emoções do indivíduo, o cérebro terá cumprido a sua tarefa protetiva.

Na religião há um efeito produzido pela inferência paradigmal injuntiva, que é o instinto de rebanho quando se torna tendencioso no âmbito da fé: esse instinto natural se deforma, ao evoluir para interesses mais complexos, como, por exemplo, a construção do espírito da secta. Constata-se o já citado princípio da presunção da inequivocidade fideísta, que nada mais é do que a execração de todos os que estão fora do nosso contexto de fé. Ou seja, todo aquele que não pertencer ao nosso grupo religioso, filiado ao mesmo livro sagrado, não é filho de Deus, portanto, tem que ser demonizado... Isso acontece de forma bruta ou sutil, mas é factual.

Para resumir, o cérebro identifica as possibilidades de convicção ideológica em uma determinada crença, confirmando-as como verdade absoluta. O que importa para o cérebro não é a verdade da crença, mas o estado de convicção do indivíduo na obtenção do equilíbrio biológico. O cérebro não se preocupa em nos dar a vida eterna, mas em promover a nossa sobrevivência.

A seleção natural programou-nos como seres gregários, por isso o instinto de rebanho. As pessoas, constituídas em grupos, juntas podem alcançar o que sozinhas não conseguem realizar. O grupo protege, representa o indivíduo e promove o corporativismo, tão necessário ao sucesso de uma comunidade religiosa. A corporação religiosa é uma forma de empresa social que cria os dogmas para regular o intercâmbio do indivíduo com Deus, sob a aprovação irrestrita e unânime dos seus componentes.

Então, veja-se. A crença é acionada não só pelo cérebro, mas no plano social, pelo Estado. A ideia da “crença na crença” é de autoria de um governo geral – um governo secreto do mundo. O investir na crença constitui enorme força social em si mesma e, para que haja a democracia conhecida, é imprescindível que a crença exista. Não importa a forma. É análogo aos processos neurais: para o cérebro a veracidade de determinada crença não é significativa e, sim, que a crença vigore para conferir segurança ao sujeito. Da mesma forma, para o Estado, o que importa é que haja crença para que a estabilidade social seja garantida.

A manutenção da crença religiosa, portanto, é tarefa indireta do Estado, que a protege como instrumento da democracia. Temos um exemplo claro: é preciso que o homem sustente a sensação de liberdade, logo, a crença no livre-arbítrio deve manter-se em larga escala. É apenas uma questão de estratégia do poder, que tem o dever de sobrepujar a inclinação individual da busca pela verdade, vetando ao indivíduo desmascarar os mitos, sustentados a todo custo através dos responsáveis pelos pilares político-sociais.

Devemos crer em algo? Lógico! No vento, nas borboletas, no trabalho, no amor, no dinheiro, em deuses, ou no que quisermos. Mas no que quisermos de fato – por nós mesmos –, porque crer na religião é crer em normas, dogmas, doutrinas, que os outros escolhem para que creiamos dentro da visão deles e para eles. Sobretudo, para o bolso deles...


[1] Acabou-se a história; terminou o assunto!


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sábado, 23 de maio de 2015

DESVIOS COGNITIVOS II

O indivíduo só vê qualquer coisa dentro do que acredita, porque já perdeu uma série de pontos de conexão com a realidade e o maior perigo não é a crença em si, mas a convicção dela. Esse princípio guarda relação com o problema da ancestralidade. A família, semente da religião: os pais primeiro, depois, os parentes mais chegados e os amigos que servem de modelo moral. São aqueles que parecem trazer a novidade que oferece o resgate para todos os problemas. Os que impressionam – merecem ser ouvidos e seguidos. Enfim, trata-se de uma nova vida. Pelo menos no verniz das coisas... Toda crença, porém, não passa de verdade provisória e sempre está baseada na inferência paradigmal injuntiva. É também uma questão de segurança interior, o que a religião paterna outorga ao indivíduo de maneira invariável.

Existem duas vertentes para a crença no todo-poderoso. A primeira delas se manifesta como crença numa energia vital, num absoluto impessoal, que se resume à força superior tão somente, sem que haja interferência com os moradores da Terra. Um tipo de deísmo. A segunda vertente, mais corriqueira, é a crença num deus pessoal que nos orienta até quando devemos tomar um cafezinho...

Se algo positivo ocorre em nossa vida, significa que nossas orações foram atendidas pela misericórdia de Deus, ou pelos atributos da nossa fé. Se, ao contrário, algo ruim acontece, é porque Deus prova a nossa fé para aumentá-la, ou porque ainda não é o momento de respostas e isso sempre fará parte do plano divino. Ou, até mesmo, porque Ele resolveu “pesar a mão” sobre nós por várias concupiscências... Essas explicações foram bem construídas, dos antigos hebreus até a cristandade.

Os desvios cognitivos, responsáveis pelas nossas crendices, é que nos fazem desdobrar nossas fantasias, na “constatação” de experiências pessoais com o divino, a ponto de pedir a Deus a vitória do nosso time de futebol e outras besteiras correlatas, que fazem parte da compreensão neanderthalensis.

Notícias políticas, conflitos, tragédias do mundo e fatos sociais narrados pela imprensa, assumem ares escatológicos para os crentes, apocalipsistas enfermos. Intérpretes do catastrofismo nas ocorrências no planeta. Os dias que passam representam para eles o fim do mundo e nos vemos diante do inequívoco ultimatum para a conversão, caso contrário, o que nos sobra é a danação eterna. Só que para cada “conversão” existe uma cor doutrinária e limites diferentes que estabelecem a intensidade da margem estreita do dogma certitudo salutis[1], ilusão que representa passaporte para o céu.

A propagação e difusão do medo regulam o dia a dia dos crentes. Eles não conseguem chegar à percepção de que tantos fatos trágicos, presenciados hoje por nós, são o resultado das leis da natureza em reação à superpopulação mundial. Não entendem que a explosão demográfica desproporcional se espalha sobre a Terra e que o controle da natalidade seria a solução para o planeta, entretanto, eles mal aceitam o planejamento familiar, quanto mais controle da natalidade. Seria do Asmodeus a invenção da pílula?...

A grande prova de que passamos pouco de primatas sociais, é a existência da crença na magia, no xamanismo, desvio que pertence ao gênero homo. A estrutura biológica favorável à crença é tão forte que parece ter nascido com o homem. O cérebro do crente[2], predisposto ao além, envia para a mente a capacidade de “ver” coisas, de encontrar paradigmas significantes em tudo, para depois infundir lógica a esses modelos. Trata-se da ação neural que cria mecanismos pseudonecessários ao equilíbrio emocional. “Achismos” do senso comum situam-se na ordem da inferência paradigmal injuntiva, enquanto que a tentativa de incutir uma lógica infundada estaria num plano menos racional ainda, que denomino de relata refero.[3]

É do homem a presunção de dominar o próximo. Nada melhor, então, do que a invenção das fábulas grosseiras que encerrem ameaças primitivas e promovam o desenvolvimento do medo, através da criação de figuras imaginárias, numa expressão mais ampla do termo. Não importa o grau de incoerência dessas figuras, isso até ajuda no distanciamento da lógica para que as fés se justifiquem. No binômio culpa-medo se hospeda a força religiosa.

Quanto mais irracional é a fé, embora contenha uma nuvem passageira, mais rápida é a possibilidade de chamar atenção. As novidades são uma isca cativante para despertar o interesse dos incautos. En passant, pelos atalhos da subversão intelectual, cabe ao sacerdote provocar um incidente ilusório-perceptivo para chegar à sujeição do homem pelo homem. É aí, então, que contemplamos em cheio o maior exemplo de que a religião não passa de um subproduto da atividade neural.

Outro componente básico, que parece ser imanente ao homem, usado de forma sutilíssima pelo clero, é a superstição. Um mal de várias faces de ignorância rasteira, como no caso das crendices populares, à potencialização, quando é camuflada na aparência e escamoteada na intenção por instituições mais pretensiosas. Por isso, são muitas as formas de superstição criadas pela cristandade.

A Igreja alimenta e utiliza tal sentimento de medo com jeito velado, sob muitas carapuças, para conduzir os fiéis aos grilhões da fé, pois a superstição é instrumento eficaz do clero. Os próprios sacerdotes condenam seus arquétipos explícitos em público, enquanto fazem uso dissuasório dos venenos menos aparentes, em silêncio. Se observarmos com atenção a técnica empregada pelo clero para inocular a superstição na mente dos que não têm a razão como seu fio condutor, entenderemos o que é um devoto. É aquele que constrói castelos, busca no sobrenatural a felicidade, deixa-se envolver ingenuamente por emoções banais que procura no além e nunca dá o braço a torcer.



[1] Salvo conduto – a própria salvação – a convicção de ser eleito para a eternidade com Deus.
[2] Quando me refiro à palavra crente, quero acentuar que trato de um sentido abrangente e não de um devoto do cristianismo apenas.
[3] “Conto o que me contaram” – processo popular de tentativa de isenção de um boato qualquer.

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sexta-feira, 22 de maio de 2015

DESVIOS COGNITIVOS I

Nosso cérebro é uma fábrica de crenças e somos programados pela natureza para crer nas coisas que normalmente não existem. Como a mente é um constructo do cérebro e a seleção natural nos contemplou com o instinto de rebanho, somos programados em grupo para buscar modelos significantes, contendo ou não algum sentido, para depois infundir a sensação de lógica nesses próprios modelos. Claro está que, se estabelecemos padrões, logo geramos outros. Nossa mente nos engana para nos fazer felizes.

Acontece que, na ultramodernidade, emergiu o conceito da “crença na crença”, talvez pelo concomitante afloramento do relativismo da verdade, que passou a fazer parte do cardápio cultural do nosso tempo. Como não é mais possível cobrar do senso comum crença em A, B ou C, a menos que haja crença em algo, o que é melhor que o nada, porque o nada, nada é. Um pressuposto, não? Pode-se crer talvez no vento, nas mariposas xamânicas ou em qualquer outra referência que nos chegue. Essa ideia agrega e atende ao necessário que propõe o espírito de coletividade, embora seja uma falsa premissa, pois não passamos de primatas sociais que sofrem de constantes desvios cognitivos.

Os padrões de crença são introjetados nas crianças desde cedo e isso se torna um processo extremamente covarde, poderoso, que talvez permaneça pelo resto da existência. Essas crianças quando crescem, às vezes, abandonam as crenças. Ou as adotam em definitivo através de influência hereditária, reforçadas por imensas bagagens de argumentos, que se pretendem convincentes, com o fim de perpetuar a crença dos genitores e progenitores. Torna-se, assim, mais o cumprimento de um rito familiar – um tipo de continuidade –, um compromisso enraizado. É como se a religião dos pais viesse através do leite materno. Na verdade, esses padrões de crenças familiares se enraízam de forma duradoura, de modo ritualístico, um tipo de tributo prestado aos próprios antepassados.

A questão primordial da vida é o sentido que implantamos nela e o significado que lhe conferimos. O cérebro outorga à mente a propagação desenfreada de modelos de crenças, tarefa biológica para atuar como proteção ao indivíduo, sem que importe muito a veracidade da crença em questão. Para o cérebro, não funciona a qualidade da crença que o indivíduo escolha. Importa antes que os modelos fortaleçam as crenças selecionadas: são biologicamente protetivas, mesmo que não façam nenhum sentido teológico.

O importante é acreditar em qualquer coisa para que se alcance a estabilidade emocional? A saúde, então, tende a ficar do lado do homem que tenha fé até num par de sapatos velhos? A estabilidade emocional do indivíduo parece ficar restaurada, mas desde que ele seja fiel aos princípios do que a crença selecionada propõe e impõe, para que se efetive a sintonia neuronal.

Pelo ângulo exposto, surgem retalhos, produção neural, que vão compor um conceito e, em seguida, solidificá-lo através de uma sustentação intelectual qualquer. São certos paradigmas que podem conter ou não um significado real. Quando não há traços de razão ou cientificidade na construção dos conceitos, o que resta mesmo é o que se denomina de desvio cognitivo. São esses desvios que moldam e reforçam as crenças. Tanto isso faz sentido para a neurociência, que temos há séculos o credo quia absurdum est[1]...

Nossos neurônios pedem coalizões. Portanto, o resultado disso é a necessidade da busca, na mente dos mamíferos cognitivos como nós, pelos que mantêm a mesma linha de pensamento em crendices e voos religiosos imaginários. Nessa busca, tudo que se situar fora do mundo perceptivo do crente, passa a ser preterido e até demonizado. Chamo a isso de inferência paradigmal injuntiva.

Quanto mais mergulhamos na crença que nos dá um suposto equilíbrio, amparados pela estrutura neural, mais cresce a tendência de execrar aqueles que estão fora do nosso contexto perceptivo. Chamo a isso de presunção de inequivocidade fideísta.

Teria a seleção natural nos legado tal conduta involuntária? Longe disso, é apenas como o cérebro funciona para proteger o indivíduo e definir o instinto de rebanho – ao tempo que produz coalizões protetivas imprescindíveis. Afinal de contas, a natureza não é boa nem má: apenas nos fornece os meios adaptativos. Precisávamos formar bandos, hordas, grupos – grupos sociais. Por exemplo, os que se reúnem em torcida de um determinado time de futebol; em torno dos jogos preferidos; de esportes; associações culturais; filantrópicas e, por fim, religiosas. “Meu time é o melhor e a minha religião também! A crença que escolhi é a verdadeira. Todas as religiões são boas, mas a minha é a melhor”. Deduzimos, assim, que essas afirmações provêm dos processos cognitivos desviantes e outorgam ao indivíduo a sensação de certeza...


[1]Creio porque é absurdo” – dictum de Tertuliano e depois postulado por Martinho Lutero.

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

RELIGIÃO E SENSO COMUM

Jung insistia na ideia da impossibilidade de penetrarmos na essência dos fenômenos e que deveríamos renunciar às tentativas de fazer deles um problema intelectual. É certo que a referência trata dos fenômenos psíquicos, mas qualquer ramo da ciência não estaria intimamente associado à “ocorrência fenomênica”? Pois, como a Física prosseguiria? E a própria Psicanálise?

Superestimar a razão, Jung comparava, seria algo em comum com o poder do Estado absoluto: sob o seu domínio o indivíduo pereceria. Ora, aceitar com resignação e temor o incognoscível não é muito mais perigoso?

O entendimento de Jung sobre tudo o que o homem, na sua epopeia apreendeu e concluiu, é um fenômeno psíquico in totum. Assim, dentro dessa medida, permanecemos trancados, aflitos, num mundo unicamente psíquico. Certo é que resistimos ao que não conhecemos, pois vivemos encarcerados ao nosso mundo perceptivo. Tudo representa ameaça quando colocamos os pés fora do restrito espaço da nossa percepção e reagimos ao intruso que apresente fundamentos mais fortes que os nossos.

Se rejeitarmos a ideia de fazer de um fenômeno um problema intelectual, voltamos ao passado distante; restabelecemos os mitos e as fábulas como norte da civilização. Ao repisar, então: a religião começa quando a ciência termina? Puro sofisma: isso estabelece uma ciência estanque. Na verdade, a religião começa aonde a ciência ainda não chegou. Quando chega, a falsa certeza religiosa vai circum-navegar em outros mares – a história da civilização demonstrou há muito a superioridade do argumento científico.

Questionamentos se tornam moeda corrente até nos grandes mestres. Ao mesmo tempo em que Jung, oposto de Freud, mescla os fenômenos psíquicos, entremeados de opiniões transcendentais, aos dados do purismo científico, também não pode fugir de verdades incontestes: “Quase todos concordam que a hipótese do homem ter sido criado em toda a sua glória no sexto dia da criação, sem degrau anterior, é muito simplista e arcaica para nos satisfazer. Entretanto, em relação à psique, as concepções arcaicas continuam em vigor: a psique não teria antecedentes arquetípicos; seria uma tabula rasa, uma criação inteiramente nova, que tem origem na ocasião do nascimento”.

Jung insiste na ideia de cultivarmos segredos e mantermos a intuição de algo incognoscível. Com a existência interior dividida, entretanto, muito devido ao caso amoroso com sua paciente, a futura psicanalista Sabina Spielrein, desabafou: “Permanecemos de mãos vazias, espantados, perplexos, e nem mesmo percebemos que nenhum mito nos ajuda, agora que temos tanta necessidade dele”. Em toda a sua obra, sentimos os altos e baixos de alguém que nunca se livrou dos envolvimentos com o além. Quase um século depois do dito de Jung, ouvi de Ivan Wasth Rodrigues[1] o aforismo: “Nenhum tipo de divindade nos socorre e a religião foi feita para quem precisa dela”...

Este livro é uma tentativa de mostrar ao leitor o resultado das crenças nas nossas vidas, ao focalizar a construção das Escrituras como veículo de perpetuação das crendices canonizadas. Quero mostrar como as crenças são construídas pelo cérebro e amparadas pelos desvios cognitivos dos quais somos reféns com frequência absurda. Indico como reaprender a pensar e, também, a analisar mergulhos equivocados nas crendices que nos rodeiam. Exponho a invenção do monoteísmo com propósitos teocráticos. Revelo como os livros sagrados foram construídos, sem escrúpulos, pelo judaísmo, cristianismo, islamismo e religiões orientais. Sobretudo a Bíblia, modelo maior de sustentação da “religião do Livro”.

Chegamos a um desgaste terrível da ideia de Deus e isso foi gerado pelo cinismo da indústria da fé, que se espalha apesar da evolução intelectual do homem. É o cinismo aceito e admitido pelos que não usam o poder da reflexão, que são conhecidos pelos termos infelizes de “massa de manobra e idiotas úteis”.

Quanto a mim, no passado, arrisquei a vida na esteira perigosa do sectarismo, o desfecho letal de todas as religiões, que primeiro atraem e depois escravizam. O perigo maior não é quando a presa está na boca do peixe, mas quando ela passa para o estômago, de onde não sai mais. Desperdicei boa parte da vida de maneira obstinada, na busca de soluções salvacionistas que me garantissem um lugar na eternidade e promovessem as respostas de que necessitava. Tal qual milhões de pessoas fazem, sem novidade.

A vaidade espreita os incautos e, em determinado estágio do novo caminho escolhido, fui cercado pela sensação de santidade. Isto porque, dentro dos parâmetros religiosos, eu teria passado do estado de ímpio ao de “separado para servir”... Bem, disseram-me isto. Achei-me feliz, até perceber, anos depois, que fora vítima de um pentecostalismo de péssima carpintaria teológica.

Sugou-me um sistema cruel, o tenebroso viés salvífico, que com palavras de esperança alega resgatar nossas almas, mas lambe os beiços com a matéria viva. Depois, cobra-nos a presença física para surrupiar o que houver nos bolsos e, o pior, escravizar as mentes fracas. Equivocados, morremos para o mundo.

Parado num congestionamento de trânsito, certo dia, avistei uma casa à beira da estrada, que tinha no vidro de uma das janelas um cartaz colado – chocante demais para a minha estrutura espiritual da época. Li o seguinte: “Quando uma pessoa sofre de um delírio, isso se chama insanidade. Quando muitas pessoas sofrem de um delírio, isso se chama religião”... Fiquei perturbado e analisei, por anos a fio, o que a realidade me mostrava. Não o que me diziam, mas o que via – a vida como é –, não como deveria ser. Pensei, assim, sobre o que significa ter uma palavra na boca e outra no coração. Exercício religioso.

Hoje, bem distante do homem atolado na crendice, apático e despolitizado que era, encontrei libertação interior na simples busca pelo conhecimento. Esse processo leva tempo. Requer boa carga de humildade e abertura para se alcançar espírito livre, entretanto, reaprende-se a pensar.

Achei que devia algo a mim mesmo: ser honesto com a posição religiosa – a partir do conhecimento científico –, não com as historinhas de Deus que me contavam. Como não recebia atenção ao procurar as pessoas, pois elas raramente queriam falar de Deus (por absoluto despreparo intelectual), adotei um empirismo trivial como defesa. Olhava em todas as direções para detalhes, palavras, filosofices, gestos ensaiados e atitudes tendenciosas dos mamíferos humanos religiosos. Vi um cenário diferente, analisei com método. Deparei-me com clichês assombrosos, mas era hora de escapar do senso comum com urgência. Então, busquei coragem e me curvei ao conhecimento científico. Valeu a pena!

Cheguei honestamente à conclusão de que, apesar dos defeitos horríveis que a seleção natural nos legou, que expõe nossa origem inferior, tais defeitos ficam ainda mais doentios e aleijados, ocultos pelo verniz religioso. A partir daí, não consegui mais conciliar a fé com o conhecimento e abandonei a crença no deus dos sectários.

A razão primacial que me motivou a escrever esta obra foi mostrar ao leitor que o dever moral e a bondade, se fazem parte do nosso interior, jamais representam qualquer tipo de fé, tampouco são devidos às religiões em geral. Foram ensinamentos dos nossos pais ou uma atitude moral que tomamos diante da vida.



[1] O mais famoso ilustrador histórico brasileiro e meu mestre de desenho (1927-2007).

ATENÇÃO: todos os direitos reservados.

terça-feira, 10 de março de 2015

AGORA NA AMAZON!

Estamos na maior livraria virtual do mundo, esperando a sua visita para dar uma olhadinha nesses livros...


    Nos tempos confusos em que vivemos, o autor traça o perfil de uma sociedade que perdeu o norte em meio ao oceano de dogmas e doutrinas que circulam à nossa volta.
    Há o disfarce, mas sabemos da perda de credibilidade do povo em relação à fé nas Escrituras. A Bíblia não é mais vista como palavra de Deus pela maioria das pessoas, pelo menos do jeito que nossos pais nos ensinaram.
    Vivemos em sociedade, mas pressionados pelo medo. Assim, o autor nos permite uma interpretação mais audaciosa do texto, porém, ensinando-nos o caminho para reaprender a pensar a fé. Sem medo. Sem a submissão aos conhecidos “homens de Deus”.
    A indústria da fé nos ensina a pensar autenticamente e nos aponta um recomeço livre dos fardos da religião. É preciso soltar as algemas impostas...


     A religião do livro é uma obra dedicada àqueles que não ficam felizes com meias-verdades e que estão sempre buscando respostas absolutas. Enfim, um livro escrito para os que têm o espírito livre e acreditam na possibilidade do feliz e da libertação dos fardos de cimento, que tanto nos escravizam.
    A religião do livro não oferece mais uma alternativa, pelo contrário, desperta-nos para a compreensão de um mundo de aleatoriedades, de barbárie crescente e irreversível, que requer uma reformatação das nossas mentes para suportarmos a onda gigantesca de adversidades que se aproxima. A ideia central do livro está na reformulação do pensamento, desde que admitamos a equivocidade dos nossos conceitos em relação às conclusões cheias de convicção...
    Vivemos uma multiplicidade de desvios cognitivos diários – de achismos – e de consequentes equívocos, que ocultamos para não perdermos o próximo ato. Esses desvios de cognição são encontrados, sobretudo, no universo das crenças religiosas. Só que não admitimos isso, pois a tendência é presumir que as nossas crenças sempre estejam certas e, então, demonizamos as dos outros.
    A religião do livro mostra-nos o que jamais imaginamos: como o Antigo Testamento foi construído de forma tendenciosa, tudo com a finalidade de favorecer um povo antigo, que descobriu a filiação divina como meio político de crescer economicamente. Da mesma maneira, o Novo Testamento também foi construído para perpetuar a teocracia através dos séculos...
    Hoje, através do método histórico-crítico podemos obter, à luz da razão, todas as respostas que faltavam para expor que a ciência não acaba onde a religião começa. A ciência não estaciona, evolui, enquanto o sectarismo promove a culpa e compara os homens. A presente obra é algo que nos ensina a parar para refletir, admitir erros, reaprender a pensar e estabelecer novos rumos, enfrentando a única realidade que temos: o agora.
Agora só falta a sua visita!



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

NOVO TÍTULO QUE CHEGA



Estamos, a cada instante das nossas vidas, diante de um fato desconcertante: somos traídos pelas emoções e, o pior, pelas nossas próprias convicções. Vítimas dos achismos, nunca admitimos a possibilidade de que nossas ideias e escolhas sejam de péssima intuição. Aliás, por causa de intuições, Napoleão perdeu o império, o mundo de hoje se destrambelhou e as crenças foram inventadas... 
Quando o tempo passa, ideias que defendíamos já não representam muito para nós, pois fomos transformados pela vida e, alguns, por meios atrozes. Então, não há como as mudanças deixarem de interferir nos caminhos que percorremos por aqui.
A religião do livro é uma obra dedicada àqueles que não ficam felizes com meias-verdades, portanto, estão sempre buscando respostas plenas e absolutas. Enfim, um livro escrito para os que têm o espírito livre e acreditam na possibilidade do feliz e da libertação dos fardos de cimento. Precisamos alcançar o que temos agora e não o que nos prometem para depois.
A religião do livro não oferece mais uma alternativa, pelo contrário, desperta-nos para a compreensão de um mundo de aleatoriedades, de barbárie crescente e irreversível, que requer uma reformatação das nossas mentes para suportarmos a onda gigantesca de adversidades que se aproxima. A ideia central do livro está na reformulação do pensamento, desde que admitamos a equivocidade dos nossos conceitos em relação às conclusões cheias de convicção...
Vivemos uma multiplicidade de desvios cognitivos diários – de achismos – e de consequentes equívocos, que ocultamos para não perdermos o próximo ato. Esses desvios de cognição são encontrados, sobretudo, no universo das crenças religiosas. Só que não admitimos isso, pois a tendência é presumir que as nossas crenças sempre estejam certas e, então, demonizamos as dos outros.
A religião do livro mostra-nos o que jamais imaginamos: como o Antigo Testamento foi construído de forma tendenciosa, tudo com a finalidade de favorecer um povo antigo, que descobriu a filiação divina como meio político de crescer economicamente. Da mesma maneira, o Novo Testamento também foi construído para perpetuar a teocracia através dos séculos...
Hoje, através do método histórico-crítico podemos obter, à luz da razão, todas as respostas que faltavam para expor que a ciência não acaba onde a religião começa. A ciência não estaciona, evolui; enquanto a religião culpa, compara os homens. A presente obra é algo que nos ensina a parar para refletir, admitir erros, reaprender a pensar e estabelecer novos rumos, enfrentando a única realidade que temos: o agora.

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